Entre linhas

Depois de um sexo gostoso, nada melhor do que virar para o lado e dormir. Mas ele não pode fazer isso. Precisa ir embora, precisa ir para casa, ainda que cada molécula de seu corpo grite para ficar ali com Jéssica que, durante 30 minutos, proporcionou a ele intensos momentos de prazer. Mas tem de ir para casa. Precisa voltar para a solidão de seu apartamento. Voltar, ainda que queira ficar ali, naquela cama, na intimidade daquela pessoa que lhe proporciona tanto tesão.

Saindo, pega na bunda de Jéssica, agradece e lhe dá um beijo na boca. Neste momento, pensa que se tivesse mais 80 reais para pagar por mais um programa, o faria com prazer. Mas seu dinheiro acabou. Nem sabe o que irá comer amanhã. Ainda assim, não se importa, pois não pensa no amanhã. Seu ofício de mecânico de automóveis dá a ele a possibilidade de fazer dinheiro quase todos os dias, então se acostumou a não pensar, não planejar o dia seguinte. Vive como uma máquina consertando máquinas de outras máquinas.

Sai com a mesma travesti a seis meses. Chega no mesmo local, pelo menos uma vez por semana, pontualmente às 21h. Gosta de Jéssica, nome utilizado por sua amante, pois consegue ter com ela sensações nunca vividas com nenhuma mulher. Jéssica entende, pois está acostumada com essa situação. Em seu ofício, já atendeu homens (e até algumas mulheres) das mais diversas profissões e lugares, das mais diversas religiões e posições sociais, ricos, pobres, pastores, padres, homens casados, solteiros, gordos, magros, feios, bonitos. Atende a todos, sem nenhuma discriminação. Mas entre Jéssica e Arnaldo rola algo diferente. Ela percebe e teme. Sabe que em sua profissão, apaixonar-se é um grande risco, afinal as fronteiras entre o sexo e o amor podem ser facilmente distorcidas.

Mas Jéssica não se importa mais. Cansou de sua vida solitária. Por muitas vezes, pensou como seria para ela construir um relacionamento duradouro, um relacionamento que vá além do sexo e que proporcione a ela carinho, afeto, amor? Não sabe como, nem desde quando, mas tal dúvida surgiu em seu coração desde que conheceu aquele homem diferente dos outros. Arnaldo era gentil, afável, meigo, e ela vislumbrava em seus olhos algo diferente, algo que não consegue explicar nem definir, consegue apenas sentir como algo profundamente verdadeiro. Almeja conversar sobre o assunto com ele, mas tem medo. Não imagina que reação ele terá. Ainda assim, Jéssica não suporta mais. Ao vê-lo sair pela porta mais uma vez, sente que irá desfalecer se deixá-lo sair. Em um movimento mais de desespero do que de reflexão, mais de emoção do que de razão, segura seu braço, e num tom de voz que mais parece um suspiro, diz:

_ Fique!

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Gênesis de um sonho eterno

A chegada do novo. O término do velho. Novo e velho são fenômenos temporais, momentos distintos que distinguem o antes e o agora e a esperança do porvir. Sim, porque o porvir, o amanhã é o novo por excelência; nele depositamos sonhos e esperanças de felicidade, de alegria, de utopia e perfeição. O velho é o que passou e para alguns chega até mesmo a ser o momento atual; estes, eternos insatisfeitos, procuram sempre no que não é, no que ainda não veio, no futuro, na possibilidade, a real felicidade. E se esquecem que a única realidade concreta que usufruímos é do momento atual, onde podemos dar rumo a nossa história, sendo autores e atores de um enredo sempre em construção.