Entre linhas (4)

Assim que Jéssica entra em seu apartamento, percebe que o dia será longo. Não fazem nem 15 minutos que Arnaldo foi embora, e já sente sua falta. Teme que ele não volte à 01h, horário combinado por eles, afinal, tudo pode ter sido apenas mais uma aventura louca. Caso ele não volte, o que fará? Ora, continuar sua vida normalmente, com o coração machucado sim, mas sempre em frente.

Tira suas roupas e vai tomar um banho. Debaixo da ducha, pensa sobre tudo o que aconteceu. Está feliz, mas também preocupada. Terá sido muito ingênua? Teve poucos relacionamentos amorosos em seus 19 anos de vida, portanto tem motivos para se preocupar. Enquanto profissional do sexo, manteve sempre distância afetiva de seus clientes, pois, ainda que com um ou com outro possa ter eventualmente ocorrido uma sensação a mais, um desejo maior, foram sensações fugazes, restritas a momentos ínfimos. Em sua vida particular, foi alvo de preconceito social desde muito cedo. Não sabe localizar com precisão quando se sentiu diferente dos outros meninos, mas acredita que se sentiu assim desde sempre. Ao chegar na adolescência não restavam mais dúvidas sobre o que desejava para sua vida sexual. Sempre foi alguém com características muito femininas, fato que não passou desapercebido dos garotos que compunham seu círculo de amizades no colégio, tornando comuns os encontros sexuais nos banheiros, nos becos, nos quartos fechados, enfim, em qualquer local escondido dos demais. No início tais encontros eram muito mais de descoberta de desejos do que de realização destes, pois se reduziam a carícias, toques, afagos. Com o desenrolar da puberdade, a intensidade de tais encontros foi se intensificando até culminar na primeira penetração. Daí decorreram a segunda, a terceira, sempre com parceiros diferentes, todos amigos do colégio, os quais exigiam sigilo absoluto. Um destes amigos foi seu primeiro amor. Ficaram juntos durante aproximadamente 01 ano e meio, mantendo relações constantes, quando ambos tinham por volta dos 16 anos. Foi nessa época que iniciou a terapia hormonal, tornando suas características femininas ainda mais acentuadas. Não demorou para que seus pais percebessem a mudança e o expulsassem de casa. Perdeu contato com seu namorado, sabendo algum tempo depois que este havia engravidado uma colega do colégio. Nunca contou nada para ninguém do relacionamento que ambos mantinham, pois encontravam-se sempre em absoluto segredo, e jamais o faria. Fora de casa, encontrou abrigo temporário na casa de amigos. Por influência deles, iniciou-se cedo na prostituição, conseguindo logo alugar um apartamento de 2 quartos apenas para si. Seus clientes pagavam caro por minutos de prazer. Tinha menos de 18 anos ao iniciar-se na prostituição, mas seus clientes não se importavam, nem perguntavam sua idade. Era bonito e extremamente sensual. Por volta dos 18 anos, já muito feminino, com silicones nos seios e na bunda, passou a exigir ser tratada como mulher. Tornou-se Jéssica de corpo e alma.

Sai do banho enrolada numa toalha, troca de roupa e coloca a suja na máquina de lavar. Seu apartamento tem dois quartos, um dos quais fica sempre trancado quando tem clientes. Abre a porta desse quarto, revelando de um lado uma estante enorme cheia de livros, sua paixão maior, e do outro uma escrivaninha na qual senta para ler. Começa a ler um romance. Este foi-lhe indicado por um cliente. Tinha três livros consigo no momento do programa, os outros dois não se lembra do título de forma alguma, mas este chamou-lhe a atenção.

_ 2666? É sobre o que?

_ Gosta de ler?

_ Um pouco.

_ É um livro de literatura. São cinco romances em um.

_ E porque 2666?

_ 666 não é o número da besta?

_ Sim.

_ Então, 2666 é o mal em dobro. Duas vezes o mal.

Gostou. No dia seguinte a primeira coisa que fez foi pesquisar no google. 2666 é de um autor chileno, Roberto Bolãnos, e exatamente como seu cliente havia dito são cinco romances em um. Parece interessante, pensa ela, comprando na mesma hora em um site de venda de livros. Uma semana depois o livro chegou. Isso foi há um mês atrás. Gostou muito, mas está lendo devagar. Terminou o primeiro romance e está no segundo.

Levanta-se depois de um bom tempo de leitura e divagações. Estica-se toda como se quisesse tocar o teto com as mãos, ronronando como uma gata. Em seguida, vai até a cozinha e abre a geladeira. Tira uma garrafa de suco e bebe diretamente da caixa. Está perto da hora do almoço, então não come nada agora, apesar de sentir fome. Vai até a varanda e olha o movimento lá fora. O tempo demora a passar quando se acorda cedo demais. Em outros dias, estaria acordando agora, ficaria mais alguns minutos deitada, com muita preguiça para se levantar, fazendo isso somente quando já estivesse próximo da hora de almoçar. Agora, fica um tempo na varanda e começa a pensar em sua vida. Sonha em terminar os estudos. Desde muito cedo estudou em escola particular, pois seus pais tiverem sempre uma boa estabilidade financeira. Estudou nas melhores escolas particulares, fez curso de inglês desde os 06 anos de idade, o que a possibilita hoje falar inglês de forma fluente. Mesmo assim, devido a expulsão da casa dos pais, não terminou o segundo grau. Mas pensa em terminar o ensino médio o quanto antes, pois sonha em fazer faculdade.

Seus pensamentos são interrompidos pela fome. Coloca um vestido e desce. Vai ao mesmo restaurante de sempre, um que fica próximo ao seu apartamento. Ali todos os funcionários a conhecem e a tratam bem. O almoço está ótimo como sempre.

Volta para seu apartamento e troca de roupa, colocando roupas de academia. Duas horas depois do almoço vai andando para a academia, a qual, como o restaurante, fica próximo ao seu apartamento. Não tem carteira de motorista, portanto ao alugar um apartamento escolheu um com boa localização, próximo a restaurantes, academia e supermercado, tudo que precisa para viver o seu dia a dia, o qual, como visto, é deveras tranquilo e pacato.

Voltando para seu apartamento, toma mais um banho e em seguida fica um bom tempo olhando Facebook e Instagram.

Seu celular toca.

_ Alô?

_ Oi amiga!

_ Oi linda! Como vai?

_ Eu vou bem e você? Tá fazendo o que?

_ De sempre … nada!

_ kkkk eu também. Quer ajuda?

_ kkkk quero sim!

_ Tô indo.

_ Ok.

Em 15 minutos sua amiga chega. Passam o restante da tarde conversando. Despedem-se às 18h, pois ambas começarão em breve a trabalhar.

Começa a se preparar para a noite de trabalho assim que sua amiga sai.

Lápis nos olhos.

Batom preto.

Lingerie vermelha.

Baby look branco, com grande decote.

Mini saia preta curtíssima.

Salto alto.

Quando chega em seu ponto, um cliente já a espera. Percebe em seus olhos o quanto ele está excitado em vê-la. Pensa que ele já estava ali há um bom tempo, mas não pergunta. Conversam e combinam o programa. Ele não quer subir, prefere ir para um motel. Ela não se opõe, desde que ele a traga de volta.

Depois do programa, muito satisfeito, o cliente a traz como combinado.

Outro cliente já está esperando.

Este é um cliente habitual. É casado, portanto não podem demorar. Sobem e terminam rapidamente. Lá fora, despendem-se como bons amigos.

21h. Não quero atender mais ninguém, pensa. Está frio. Não que não esteja acostumada com o frio da noite. Mas hoje pensa em Arnaldo. Está ansiosa para vê-lo novamente.

Logo, um Toyota Corolla estaciona próximo onde ela está e abaixa o vidro para conversar.  Os últimos são sempre os mais complicados, e não poderia ser diferente hoje. Trata-se de um casal que deseja uma aventura diferente. Informam que ela foi recomendada por outro casal amigo deles, o qual havia sido atendido a aproximadamente um mês atrás. Como tais casos não são muito comuns, lembra-se deles. Informa que custará o dobro do preço habitual. Aceitam prontamente.

Sobem.

Assim que o pagamento é feito, Jéssica coloca uma música para tocar no aparelho de som, aprovada pelo casal. Dança para eles enquanto ambos ficam sentados, a mulher atrás de seu marido fazendo-lhe massagem nas costas. Jéssica tira suas roupas em um intenso e sensual strip tease. Então, apenas de calcinha e sutiã, levanta o homem e tira suas roupas. Seu membro já está ereto. Ela se abaixa, coloca a camisinha e começa a chupá-lo. A mulher então se levanta, observando tudo e tirando suas próprias roupas. Deita-se na cama com as pernas abertas e chama Jéssica, que agora tira toda sua roupa, indo deitar-se em cima dela. Começa lambendo seus seios, bem devagar. A mulher geme. O esposo observa, excitadíssimo. A mulher empurra levemente a cabeça de Jéssica, que entende e atende prontamente. Desce e lambe sua vagina. A mulher geme alto, chegando logo ao orgasmo. Seu esposo ainda está com a camisinha que foi utilizada durante o sexo oral e se posiciona para penetrar Jéssica, que estava de quatro. Ela pede para ele esperar um pouco, pega um lubrificante que estava à mão, e passa em seu ânus e na camisinha de seu cliente. Fica novamente de quatro e pede:

_ Mete gostoso vai!

Ao final, todos estão felizes.

Todos, menos Jéssica.

Ela desce com eles, mas não volta para seu ponto. Já são 23h. Quer esperar por Arnaldo, ainda que ele não venha hoje. Toma um banho caprichado, coloca sua melhor calcinha e camisola, esquenta um leite no micro-ondas, e senta-se em frente à TV para esperar. Próximo da meia noite, o interfone toca. Seu coração bate acelerado, mas é só outro cliente. Ela então informa que hoje não irá atender mais ninguém.

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Entre linhas (3)

Quando Arnaldo chega em sua oficina começa logo a trabalhar, porém seus pensamentos estão nos braços de Jéssica. Seus companheiros de serviço perceberam rapidamente que naquele dia ele estava diferente, distante, calado demais, e ele não era assim. Com eles, conversava banalidades, participava das rodas de conversa, comentando sobre filmes que assistiu na TV ou outros assuntos corriqueiros. Apesar de ser dono da oficina, não se furtava a agir como mais um mecânico dentre os outros, sendo que qualquer um que ali chegasse jamais pensaria que aquele homem simples, humilde, prestativo, fosse o chefe dos demais mecânicos. Além de chefe, era um dos poucos mecânicos especialistas em reparo de câmbio automático em sua região; consequentemente, o serviço prestado em sua oficina não era barato. Ainda assim era bastante procurado, sendo indicado até mesmo por outras oficinas mecânicas. Ele era absolutamente honesto, buscando sempre fazer orçamentos que correspondessem ao problema apresentado. Detestava mecânicos que tirassem proveito da ignorância alheia, pois havia aprendido desde cedo a importância de uma boa reputação em seu meio. Mecânicos desonestos não tinham vez na oficina dele.

Era o terceiro filho de uma família de quatro irmãos. Sua mãe havia falecido ainda jovem, no parto de seu irmão caçula, o qual morava com seu pai no interior. Todos os outros irmãos haviam saído de casa. O mais velho havia conseguido conciliar estudos e trabalho e se formou em Direito, atuando no ramo do Direito Penal. O segundo mais velho trabalhava na área administrativa de um hospital particular. Todos eles eram distantes de Arnaldo, cada um vivendo sua vida com suas respectivas famílias.

Constituir família própria, ter filhos, havia sido um sonho em uma época de sua vida. Entretanto, nunca havia encontrado alguém para levar este sonho adiante. Seus relacionamentos anteriores nunca duravam muito, pois era sempre visto por suas companheiras como alguém muito distante. E de fato, ele o era. Não conseguia expressar amor. Não conseguia se declarar para ninguém. O amor foi sempre algo estranho para ele. O amor era algo para se ver nas novelas, mas que em sua própria vida nunca havia experimentado. Amar verdadeiramente lhe parecia algo praticamente impossível. Quando alguém não recebe amor, não pode dar amor, pois como dar o que não se tem? Mais que um sentimento efêmero, fugaz, o qual é apenas paixão, o amor é um estilo de vida que ao ser praticado, ao ser vivido, mantêm-se no decorrer da vida. Quem não vive amando não sabe o que é o amor. Pode viver uma paixão temporária e achar que é amor. Mas quando o fogo da paixão se apaga, pensa logo que o amor acabou. Porém, terá ele existido em algum momento?

12h. Hora de almoçar. Arnaldo pensou em ligar para Jéssica, mas como não combinaram nada, desistiu da ideia. Tinha medo de ser inconveniente uma vez que o combinado foi de se verem novamente apenas 01h da manhã. Almoçou com seus colegas, quase não ouvindo o que falavam, acenando com a cabeça maquinalmente quando alguém falava com ele. Estava ali apenas corporalmente, sua cabeça e seu coração estavam em outro lugar.

Pensava. Sofria.

O que ela está fazendo agora? Será que está pensando em mim? Estará almoçando também? Não sabia onde ela almoçava. Reparara que na sua casa tinham fogão e geladeira, mas será que ela preparava sua comida ou almoçava fora? Almoçava sozinha ou com amigos?

Teria Jéssica mais alguém além dele?

Ao pensar isso, balançou a cabeça nervosamente e se levantou. Chega! Começava a sofrer demais! Não queria pensar mais nada! Já havia terminado de comer. Levantou-se deixando meio copo de refrigerante na mesa. Seus companheiros perceberam o quanto estava nervoso e não falaram nada, pois o respeitavam. Apenas quando ele saísse os risinhos e comentários maldosos começariam. Todos já suspeitavam que ali havia um mal de amor e sabiam que contra esse mal não há remédio.

Voltando para a oficina começou imediatamente a trabalhar. Haviam dois carros aos quais ele dedicaria sua atenção. Um deles, um Peugeot 207, automático, ano 2009, ao circular não passava da segunda para a terceira marcha. Seu dono estava aflito, pois já havia levado seu carro para manutenção em outras oficinas. Indicaram a ele sua oficina e ele realmente já sabia o que fazer. Já havia consertado outro carro similar com o mesmo problema. O segundo carro que estava aos seus cuidados, um Renault Scénic, automático, ano 2005 havia acabado de entrar. Veio rebocado, e seu dono informou que ele simplesmente não conseguia dar a partida. Não era problema de bateria, pois toda a parte elétrica funcionava. Suspeitava que poderia ser problema na bomba de combustível e começou a investigar. Era especialista em câmbio automático, mas era também um grande conhecedor de mecânica geral.

Quando Arnaldo dá por si já são 18h. Nem reparou que todos os outros mecânicos já foram embora até que o último vem se despedir. Esteve tão absorto em seu trabalho que o tempo voou rápido demais. Está exausto, mas sente-se bem. Nunca foi como outros donos de oficina, que não pegam no batente. Gosta demais do ofício mecânico para abrir mão dele. Agora, é questão de pouco tempo para voltar a ver Jéssica. Já se esqueceu dos pensamentos sombrios que teve durante o almoço, voltando a concentrar-se apenas no encontro que terá. Toma um bom banho na ducha que instalou no banheiro da oficina apenas para si, um dos únicos privilégios exclusivos que tem ali. Coloca suas roupas limpas, leva seu jaleco sujo para lavar em casa e pega algum dinheiro no caixa.

Vai para seu carro. Dirige para seu apartamento, mas no caminho passa no mercado e compra pão, suco, biscoitos e algumas frutas. Ao chegar, coloca seu jaleco para lavar na máquina e vai para a cozinha, passa manteiga no pão e come com suco. Levanta-se novamente, pega uma maçã, lava e vai se sentar em frente a televisão. Liga e começa a procura por programas interessantes. Tem mais de 100 canais, mas se ele assiste a 01 ou 02 é muito. Coloca nos canais de filme e começa a assistir um que parece interessante. Um cara meio careca, bem vestido, dirigindo um carro em alta velocidade. Está levando uma mulher, ela muito assustada. É uma perseguição. Outros carros, o perseguindo, atiram atrás dele. O protagonista dirige como ninguém, coisa de filme, ele pensa.

Não percebeu quando dormiu. Acorda assustado. São 23h. Está ansioso. Pensa em sair logo de casa, mas avalia que ainda está muito cedo. Começa novamente a procurar algum programa interessante na TV, mas não acha nada. Volta aos canais de filmes. Um de terror está passando e parece interessante.

O

Tempo

Parece

Não

Passar

Mas passa. De repente já são 00h. Arnaldo se levanta. Está eufórico. Seu coração bate forte. Não se sentia assim desde o colegial, quando ainda era adolescente. Tira o jaleco da máquina e estende no varal. Vai tomar mais um banho, faz a barba, escova os dentes, passa perfume e troca novamente de roupa.

Sai às 00h45m e vai ao encontro de Jéssica.

Entre linhas (2)

_ Ficar?

_ Sim, fique!

Arnaldo não acreditava nas palavras de Jéssica. Ficou um bom tempo parado, estático, sem saber direito o que fazer. Jéssica então o puxou para dentro, o abraçou forte, e sussurrou em seu ouvido obscenidades que o deixaram muito excitado. Depois de fazerem sexo mais uma vez, adormeceram juntos.

No dia seguinte ambos acordaram cedo. Não era do costume de Jéssica acordar cedo tendo em vista que trabalhava até tarde. Mas como também nunca havia dormido com um cliente, acordou cedo tentando entender ainda o porquê de sua atitude e, ainda que estivesse feliz, chamava-se a si mesma de louca, desvairada, e se perguntava o que faria dali para frente.

Arnaldo acordou pouco depois. Estava feliz. Em seus relacionamentos anteriores, havia sido sempre uma pessoa retraída. Mas, por algum motivo, agora sentia-se bem, sentia-se livre. Passou as mãos no cabelo de Jéssica com carinho, afagando ela devagar.

_ Preciso ir trabalhar.

_ Não quer ficar mais?

_ Quero, mas preciso ir.

_ Ok.

Não sabiam direito o que dizer um ao outro. Ambos estavam ainda assustados, naquele medo de amantes que não sabem bem ainda o que esperar do outro. O amor nunca brota sozinho, vem sempre acompanhado de outros sentimentos. No caso deles, havia felicidade, mas havia também ainda muita insegurança. Há momentos na vida em que o medo é importante, pois te impede de correr riscos desnecessários. Mas se o medo domina a pessoa ela não vive, apenas vê a vida passar diante de si.

Arnaldo se levanta. Não sabe direito o que fazer. Começa colocando suas roupas, vai ao banheiro, penteia o cabelo com as mãos. Tudo observado pelo olhar de Jéssica.

_ Então … até mais.

_ Espera.

_ O quê?

_ Você volta?

_ Se conseguir mais dinheiro …

_ Bobo! Não precisa …

Arnaldo beija Jéssica.

_ Venho que horas?

_ 01h. Pode ser?

_ Tão tarde?

_ É o horário que paro de atender.

Arnaldo sentiu-se desconfortável. Porém, calou-se.

Jéssica se levanta. Está de calcinha e sutiã, os cabelos desarrumados. Vai ao banheiro e se arruma. Veste uma bermuda jeans curtinha e uma camiseta baby look. Em seguida, vai com Arnaldo à cozinha.

_ Quer comer?

_ Quero! Diz Arnaldo, pegando no bumbum de Jéssica.

_ Bobo! Aqui tem biscoito. Pega o suco na geladeira.

Depois de comerem, saem.

Jéssica desce com ele. Na rua, não andam de mãos dadas. Jéssica queria, contudo não diz nada, uma vez que seu medo é maior que seu desejo. Pode ser alguém desinibida sexualmente, mas em sua vida particular é muito reservada.

Arnaldo não pensa em nada disso. Está preocupado com o horário, pois já está muito atrasado. A rotina em uma oficina mecânica começa cedo, então precisa correr. Está com pressa. Quando chegam ao carro, despedem-se.

_ Então, até mais tarde.

_ Até.

Quando ele vai embora, ela mal se aguenta dentro de si. Há muito tempo não sente esse frio na barriga, esse sentimento inexplicável e intenso. Volta para seu apartamento tendo atrás de si olhares de homens indo trabalhar, os quais olham lascivamente para sua bela bunda.

Arnaldo está a 80 km/h, em uma via de 60 km/h, em direção à oficina mecânica.

Entre linhas

Depois de um sexo gostoso, nada melhor do que virar para o lado e dormir. Mas ele não pode fazer isso. Precisa ir embora, precisa ir para casa, ainda que cada molécula de seu corpo grite para ficar ali com Jéssica que, durante 30 minutos, proporcionou a ele intensos momentos de prazer. Mas tem de ir para casa. Precisa voltar para a solidão de seu apartamento. Voltar, ainda que queira ficar ali, naquela cama, na intimidade daquela pessoa que lhe proporciona tanto tesão.

Saindo, pega na bunda de Jéssica, agradece e lhe dá um beijo na boca. Neste momento, pensa que se tivesse mais 80 reais para pagar por mais um programa, o faria com prazer. Mas seu dinheiro acabou. Nem sabe o que irá comer amanhã. Ainda assim, não se importa, pois não pensa no amanhã. Seu ofício de mecânico de automóveis dá a ele a possibilidade de fazer dinheiro quase todos os dias, então se acostumou a não pensar, não planejar o dia seguinte. Vive como uma máquina consertando máquinas de outras máquinas.

Sai com a mesma travesti a seis meses. Chega no mesmo local, pelo menos uma vez por semana, pontualmente às 21h. Gosta de Jéssica, nome utilizado por sua amante, pois consegue ter com ela sensações nunca vividas com nenhuma mulher. Jéssica entende, pois está acostumada com essa situação. Em seu ofício, já atendeu homens (e até algumas mulheres) das mais diversas profissões e lugares, das mais diversas religiões e posições sociais, ricos, pobres, pastores, padres, homens casados, solteiros, gordos, magros, feios, bonitos. Atende a todos, sem nenhuma discriminação. Mas entre Jéssica e Arnaldo rola algo diferente. Ela percebe e teme. Sabe que em sua profissão, apaixonar-se é um grande risco, afinal as fronteiras entre o sexo e o amor podem ser facilmente distorcidas.

Mas Jéssica não se importa mais. Cansou de sua vida solitária. Por muitas vezes, pensou como seria para ela construir um relacionamento duradouro, um relacionamento que vá além do sexo e que proporcione a ela carinho, afeto, amor? Não sabe como, nem desde quando, mas tal dúvida surgiu em seu coração desde que conheceu aquele homem diferente dos outros. Arnaldo era gentil, afável, meigo, e ela vislumbrava em seus olhos algo diferente, algo que não consegue explicar nem definir, consegue apenas sentir como algo profundamente verdadeiro. Almeja conversar sobre o assunto com ele, mas tem medo. Não imagina que reação ele terá. Ainda assim, Jéssica não suporta mais. Ao vê-lo sair pela porta mais uma vez, sente que irá desfalecer se deixá-lo sair. Em um movimento mais de desespero do que de reflexão, mais de emoção do que de razão, segura seu braço, e num tom de voz que mais parece um suspiro, diz:

_ Fique!