Zeloso amor danoso

Ele resolveu colocar no vidro traseiro de seu carro: “Satanás quem me deu”.

Saiu. Poucos metros adiante já começaram os olhares. As vaias também não demoraram. Ele, porém, estava tranquilo, pois já esperava ânimos exaltados. Acreditava, todavia, que seria respeitado por expressar sua crença. “As pessoas não expressam”, pensava ele, “seu amor por Jesus e por Deus em seus carros? Porque não posso também eu expressar meu amor por Satanás?”.

Ele não viu de onde veio a pedrada que atingiu seu rosto. Mas foi tudo muito rápido: em segundos, após perder a direção e bater em um poste, foi retirado do carro e linchado. Durante o linchamento, ouviam-se gritos de “Deus é mais”, “Queima em nome de Jesus”, dentre outros.

Após o matarem, sirenes da polícia se ouviram. Todos correram, deixando o corpo para trás. O carro, danificado pela colisão, mantinha em seu vidro traseiro a mensagem de amor que gerou o ódio. E as duas filhas do falecido, que ele iria buscar na escola, terão de esperar por sua mãe.

Ódio em nome do amor.

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Taça de fel

A bebida tinha um gosto horrível. Ainda assim ele não parava de beber! Por que? Por que não parar, por que não sair e ir embora? O tédio (maldito tédio!) impulsionava-o a auto-destruição! Não se importar nem se incomodar! Apenas beber (esse seria seu lema se ele tivesse um)! E no fim esquecer, no fim não mais saber de nada, no fim apenas a ressaca amarga e o estômago dolorido (o vômito faria o favor de retirar todo o veneno de si). Pensava apenas: “Foda-se!” Não queria saber, não queria nada! Pensava: “Foda-se tudo, até eu mesmo!”

No fim, apenas a dor restaria. Dor amarga, ingrata e cruel; ainda assim, fiel companheira que o acompanhava desde sempre. Desde … Não, não queria lembrar, não queria saber: queria apenas beber, beber e beber (refugio, fuga, asilo), = válvula de escape, solução [(antepen)última] dos desesperados, tentativa de preenchimento do sentimento do vazio … tédio!

Mas ele não queria lembrar, não podia lembrar; se lembrasse, sua dor seria tão desesperadora, tão intensa e aguda e crônica e lancinante que não suportaria. Então o que fazer? Beber! Beber para esquecer, para não saber; e quem sabe porventura [desejo último do inconsciente] morrer. Era isso? Esse era seu desejo? A morte? Acabar com sua existência medíocre, banal e ordinária? Mas seria tão fácil … não mais sofrer, não mais lembrar, não mais nada. Seria pior a morte que a vida? Seria pior descansar na cama final que aguarda toda a humanidade a se arrastar no lodo da vida? Seria pior?

E então ele bebe. Cada vez mais e mais. Nunca antes ele havia bebido assim, nem em seus porres mais homéricos, nem em suas farras mais lascivas, nem em seus sonhos. Quase não lhe restavam mais forças, quase não lhe restava mais consciência. Sua última dose de energia estava direcionada para o levantar do copo e o sorver da bebida e seus últimos pensamentos conscientes resumiam-se em palavrões raivosos dirigidos contra si, contra tudo e contra todos. Todos!

Caminhando, caminhando, caminhando …

Era só mais um dia em minha vida. Nada especial, apenas mais um dia. Caminhando pela rua, nada parecia diferente. O sol me incomodava com seu brilho, pois estava sem óculos escuro. Os carros passavam próximo a mim. O vento soprava, sem muita força, mas o suficiente para fazer com que eu me arrependesse em parte de caminhar. Em parte, pois caminhar é sempre um prazer para mim. Prefiro sempre caminhar a me locomover de carro. Quando caminho, sinto-me vivo, sinto-me conectado aos outros ao meu redor e a uma realidade maior, ainda que não consiga nomeá-la.

De repente, gritos. O que está acontecendo? Ouço pessoas gritando. Uma mulher passa por mim, correndo e chorando, apavorada. Som de tiros. Algazarra, balbúrdia total. Apesar de tudo, continuo andando. Não modifico minha rota, não tento me esconder. Nem eu mesmo consigo explicar minha reação, em fluxo contrário à reação comum. A adrenalina não me afetou, minha tranquilidade não se abalou, nem com os gritos, nem com os tiros, nem com a correria. Continuo andando, como o vento continua a andar e o sol continua a brilhar.

Um homem pára em minha frente. Revólver na mão, apontado para mim. Está suado, ofegante, e parece assustado. Há sangue escorrendo pela sua cabeça, ao que parece fruto de uma forte pancada. Aparentemente ele não se deu conta da pancada e do sangue. Seu ímpeto, sua cólera, bloqueia toda dor. Admiro tanta bílis, tanta força, tanto ímpeto. Mesmo que eu me esforçasse não conseguiria reagir de forma tão exaltada. Não o conheço, não conheço sua história, seus traumas, seus desejos, suas motivações. Para que tanta raiva? Por que tanto ódio?

Ele grita. Xinga obscenidades. Nem escuto direito, não entendo o que ele quer. Nem sei se ele quer mesmo alguma coisa. Parece-me que no momento há apenas um desabafo de sua parte, a raiva exaltada ao extremo, expressa numa profusão de palavrões sem nexo e sem encadeamento lógico. Aliás, a lógica é a última coisa presente na cena. O caos impera, de forma bruta e contundente.

Faço então a única coisa que poderia fazer: continuo a andar. Caminho, sem me importar com o homem na minha frente, sem me importar com sua cólera e seus motivos, sem me importar com a arma na sua mão. Toda balbúrdia, correria, gritos, é externa a mim; em minha essência só há o desejo de caminhar. Sigo minha essência e vou caminhando, caminhando, caminhando …

Cotidiano constante

_ Ei! Como vai?

Virei-me. Quem é? Não me lembro. Aliás, lembro-me sim, vagamente, mas seu nome … não consigo me lembrar. Ela sorri. Não quero demonstrar que não lembro seu nome.

_ Olá! Nossa, há quanto tempo! O que tem feito?

Ela relata sua vida. Diz de seu casamento desfeito, de sua filha e de como ela cresceu. Eu escuto maquinalmente. Aliás, não escuto. Não penso nela. Minha mente está a quilômetros dali. Não consigo lembrar seu nome, e não me importo. Não me importo. Não me importo com ela, com sua filha, nem com sua vida. Nada disso me importa, nada me importa, só me importa sair dali e voltar a caminhar, pensando na minha própria vida, nos meus próprios problemas. Serei egoísta? Serei mau? Ora, não me importo. É tão simples para mim, essa minha disposição indisposta ao problema alheio. Serei egoísta ou mal por isso? Por não querer ouvir? Por não querer falar? Por querer estar só com meus pensamentos e comigo mesmo nessa fria manhã de novembro?

_ Ei! Você está me ouvindo?

_ Sim, claro, é claro que sim! Continue!

Ela continua. Me diz de sua solidão. Solidão. Ora, saberia ela o que é solidão? Estar só, não ter ninguém para te ouvir, não ter ninguém com quem falar. Ela não sabe o que é solidão. Ela não sabe o que é ser solitário. Mas ela continua. Eu já quase sinto náuseas por tanta auto-piedade, por tanta lamúria. Definitivamente, não quero mais ouvi-la, quero apenas sair dali. Porém ela não para de falar. E de repente, ela sorri. Eu sorrio também, apenas em retribuição. E junto com este sorriso vem também as lembranças. Lembranças a muito enterradas renovam-se e ressurgem com vigor. Meu Deus, quanto tempo. E como ela está diferente. Antigamente belíssima, agora castigada pelas intempéries do destino e do tempo. Ainda assim, há algo de belo em sua fisionomia. Em sua voz, em seu jeito. Seu cabelo continua belo, sua pele também mudou muito pouco. Seu corpo está mais cheio, talvez até mais vistoso do que antes. Ela me olha com seus belos olhos. Sorrimos novamente.

_ Perdão! Como é mesmo seu nome?