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O amor prega peças; quando menos esperamos, sob as situações mais improváveis, ele surge. E quando vem domina, ocupa, direciona todo ser daquele que ama, restando-lhe poucas alternativas a não ser a rendição, total e irrestrita. O amor não oferece muitas escolhas. Enfraquece o raciocínio e nos deixa à mercê de seus caprichos. Sua vitória é certa como o nascer do sol, bela como as diferentes fases da lua.

Ambos os amantes tem agora um dia difícil pela frente, refletindo sobre tudo que passou. Ele estava enfeitiçado, fazia planos, seu maior temor era o de não ser correspondido e sua ansiedade era a de vê-la novamente. Ela, todavia, estava deveras preocupada, pensando nas loucuras cometidas, martirizando-se com isso. Sabia que tudo o que fizeram havia sido uma grande inconsequência e se perguntava o porquê daquilo. Entendia bem os riscos, logo qual o sentido? Porque insistir em um relacionamento condenado desde o princípio? E porque se arriscar tanto, não só emocionalmente, mas até fisicamente? Não tinha respostas, e isso só aumentava sua angústia. Sentia-se presa, e mesmo assim não queria a liberdade. Prisão sem grades, sem muros, cujo único guarda é si mesmo.

Lá fora, o céu estava completamente azul e não haviam nuvens. As pessoas iam para seus trabalhos, a maioria de carro, iniciando um vai e vêm de veículos nas pistas. Mas na maioria dos carros, cujo espaço interno comportaria cinco pessoas, ia somente uma, o que resultava em lentidão no trânsito e engarrafamento em alguns locais. Centenas de pessoas por quilômetro quadrado, cada uma imersa em seu mundo particular e alheia às dores, alegrias, sofrimentos e esperanças que repousam logo ao lado. Em alta velocidade almejam a felicidade. Têm a pretensão de serem felizes individualmente. Acabam por se frustrar quando percebem que o ser humano depende de outros, desde o nascimento até sua morte. Ao nascermos, choramos ao nos separar de nossa mãe, sofremos quando somos arrancados de seu ventre quente, escuro e aconchegante e expostos ao frio, a claridade e a toda crueldade que há no mundo. Crescemos acreditando que seremos felizes para sempre, porém nos deparamos com um mundo hostil, que machuca, agride e destrói sonhos e esperanças. Se a depressão é o mal do século, o individualismo é a norma da vez, com cada qual lutando por si, por seus interesses, por sua satisfação pessoal. Vivemos egoisticamente. Sofremos na solidão, mas não queremos a companhia de ninguém. Na era do descarte, tudo é substituível, passível de ser trocado assim que possível. Trocamos e somos trocados, e assim nos afundamos no lodo da incerteza, do desamparo e do medo.

O que é o preconceito senão uma forma velada de desejo? O preconceito revela em nós algo que desejamos, demonstrando que tal ideia, comportamento ou pessoa repudiada ocupa nossos pensamentos e, ainda que seja de forma inconsciente, habita em nós. Tememos o que não entendemos exatamente pelo medo do que tal compreensão possa trazer à tona. Vontades reprimidas, inconfessadas, escamoteadas sem que nós mesmos percebamos com clareza. O ódio apenas corrobora que no fundo, na essência, há algum sentimento oculto, de desejo, de paixão, ou mesmo de amor, pois tais sentimentos extremos convivem em um mesmo continuum, sendo apenas faces da mesma moeda. Logo, a sociedade age estupidamente ao destilar profundo rancor contra quem quer que seja. Procedendo assim, revela apenas suas próprias motivações ocultas.

Não seria mais fácil acabar com tudo? Terminar ali aquele relacionamento que teria fim mais cedo ou mais tarde? Afinal, sejamos práticos: amar só traz sofrimento. Seria muito mais simples continuar a vida solitária, não mudando nada, voltando a rotina de antes. Seu trabalho era uma forma de suprir a solidão que habitava seu íntimo. Agora, em seu apartamento, refletindo sobre os acontecimentos, ansiava a brisa noturna. Na noite, jamais estava só. Sentia-se bela, forte, poderosa. Comandava homens e mulheres, proporcionava prazer a ambos, sendo por eles admirada e desejada. Os que a xingavam de dia, gemiam em sua cama a noite. E ela adorava isso. Porém, estava cedo ainda, e a noite demoraria a chegar. Ela então se recolhe para seu quarto de leitura, começando a ler avidamente.

Enquanto isso Arnaldo se engalfinha em uma discussão acalorada com seus colegas de oficina. Enquanto uns acreditam que o reparo de determinada peça é necessário para resolver o problema que surgiu em determinado carro, Arnaldo e outros acreditam que tal peça deve ser substituída permanentemente. Por fim, após breve pesquisa na internet, a discussão acaba, e a peça será trocada.

O dia transcorre tranquilamente na oficina.

No horário habitual o celular de Jéssica toca. Ela estava dormindo. Perdeu o horário do almoço, e não foi na academia mais uma vez. Atende o celular. É sua amiga. Depois do preâmbulo de praxe, Paulinha chega no apartamento de Jéssica, ansiosa para tomar ciência das últimas novidades.

_ Vai amiga, conta logo, quero saber tudo, não me esconda nada.

_ Contar o que?

_ Como assim o que? Você sabe. Conta logo vai.

_ Ah não…

_ Ah Jéssica, para de fazer cú doce. Como assim você não vai contar pra mim? Se não contar prá mim, vai contar prá quem? Somos amigas a quanto tempo? Já vivemos quantas histórias juntas? Conta logo tudinho, tudinho.

_ Ah não, não tenho nada para contar…

Com estas palavras, desatou a chorar. Paulinha nunca viu Jéssica chorando.

_ Não, não chora. Meu Deus, é tão grave assim? O que aconteceu Jéssica? Fala logo, estou aflita.

Jéssica contou tudo.

Paulinha demorou a acreditar. Estava pasma. Em seu íntimo, bem no fundo de seu ser, teve inveja, pois a história, apesar de assustadora por sua impossibilidade, era atraente, correspondendo a sonhos sonhados bem no fundo de sua alma. Contudo tal história jamais aconteceria com ela. Não se iludia. Homens como o descrito por Jéssica são raríssimos, quase impossíveis de serem encontrados. Tinha muito mais experiência que Jéssica, era calejada no ofício e não se deixava levar. Evitava beijos e maiores intimidades por puro profissionalismo. Sempre achou que todas fossem assim. Agora, estava boquiaberta com sua amiga. Não esperava tal situação vinda de uma colega de profissão.

_ Menina, você tem que se cuidar.

_ Eu sei.

_ Sabe né? Não parece.

_ Não briga comigo.

_ Não to brigando, mas é que… puxa vida… você tem que se cuidar. Tô falando da sua saúde… e do seu coração. As coisas não são assim…

_ Eu sei.

_ Sabe nada. Você não sabe.

_ Não briga.

_ Tá, tá bom. E agora você vai fazer o que?

_ Como assim?

_ Vai continuar se encontrando com ele?

_ Claro.

_ Tá vendo? Tá vendo? Tô falando… você não sabe. Não sabe.

_ Não sei o que?

_ Quanto mais você se encontrar com ele, mais presa você vai ficar. Não vai conseguir se livrar. Até que um dia ele se cansa de você. Ou as pessoas forçam ele a se cansar de você. Ai amiga, a gente não nasceu para ser feliz. Andar de mãos dadas, beijar na rua, trabalhar, estudar, isso não é pra gente…

_ Eu sei disso.

_ E então?

_ Então o que?

_ Porque você continua? Porque não acaba com isso logo?

_ Não sei.

_ Eu sei disso. Você não sabe mesmo. Ai amiga, que enrascada você se meteu.

Dizendo isso, abraçou-a fortemente. Tinham muito carinho uma pela outra. Ajudavam-se em tudo, e apesar do pouco tempo que se conheciam, sentiam-se como velhas amigas.

_ Preciso ir.

_ Eu sei. Como está seu filho?

Paulinha tinha um filho que morava com seus pais. Chamava-se Lucas e tinha 05 anos.

_ Ai amiga, ele teve febre esses dias, fiquei tão preocupada. Tive que levá-lo correndo no médico. Mas agora ele está bem já.

_ Que ótimo.

Paulinha foi embora muito preocupada. Estava triste por sentir que não tinha conseguido ajudar.

Quando amiga de Jéssica está saindo de seu apartamento, Arnaldo estava se preparando para fechar a oficina. Teve um dia cheio, e estava muito feliz. Sentia-se como um adolescente, ansioso para ver novamente a namorada. Pensava em Jéssica assim: como uma namorada. E de fato a última vez que sentiu-se assim foi na adolescência. Seus últimos relacionamentos não foram tão intensos. Como um ator que cumpre um papel ensaiado anteriormente, assim Arnaldo viveu seus últimos relacionamentos. Mas Jéssica mudou tudo.

Dirigia para seu apartamento pensando nela. Pensava em suas coxas, em sua bunda, em seus seios, em seu rosto, em sua boca. Excitava-se só em lembrar. Queria estar com ela o quanto antes. Queria poder sair da oficina e vê-la. Mas não podia, pois sabia que dali a pouco tempo ela começaria a trabalhar. Sentiu ciúmes.

Com a lua brilhando alta no céu, Jéssica sai provocante. Está linda, confiante e ansiosa. Quer viver cada momento da noite de hoje e utilizar seu trabalho para esquecer suas preocupações. Clientes já a esperam. Ela os atende sem cessar, um, dois, três, quatro, todos satisfeitos e felizes com o serviço prestado.

Pensa em ir embora, mas resolve ficar um pouco mais. Não demora e chega o último cliente. Faltam dois minutos para a meia noite, ela pensa, encerro com este e espero Arnaldo.

Sobem.

Pagamento adiantado, o programa segue sem maiores problemas, rotina da qual Jéssica está acostumada. Mas, ao encerrar, Jéssica percebe que ele não se levanta. Ela então o faz, dizendo:

_ Vamos embora?

Ele retruca:

_ Não posso ficar um pouco mais?

Jéssica fica apreensiva e se prepara. Ainda não havia passado por nenhuma situação assim, mas sempre soube que poderia ocorrer. Ossos do ofício. Arriscado, diga-se por sinal.

Disse com firmeza:

_ Não pode não. Vamos, levanta. Você tem que ir embora.

_ Ah, vamos, deixa eu ficar. Pago o triplo.

O Triplo? A memória vem como um turbilhão. Logo que ele chegou havia achado a voz dele familiar, mas devido a serem muitos clientes, achou que pudesse ser alguém que já tivesse sido atendido antes. Este é o homem que havia batido em sua porta na noite anterior! O que fazer? Ele é forte. Tem medo de um confronto direto, pois sabe que ira apanhar. Nunca precisou brigar, pois por ser extremamente educada, sempre foi bem tratada por seus clientes, fazendo até alguns amigos. Pensou um pouco e disse:

_ Olha, você não pode ficar. Tenho um último cliente. E ele está chegando.

_ Ah, eu já vi ele chegando antes. Vi que ele dormiu aqui. Porque ele pode e eu não? Quanto ele paga? Eu pago mais. É só falar.

_ Não cara! Sai logo vamos! E não volta nunca mais!

_ Porque você está falando assim comigo?

Nada de bom resultaria dali e ela sabia. Tinha que acabar com aquilo de uma vez. Estava preparada. Sacou um estilete que guardava em uma gaveta e gritou com ele:

_ Sai logo cara! Vamos!

Arnaldo estava esperando lá embaixo pelo horário combinado quando viu alguém sair apressadamente pela porta do prédio. Ainda não eram 12:30h, mas desceu do carro e correu para o prédio. Temendo pelo pior interfonou para Jéssica, que prontamente destravou a porta.

Sobe preocupado com Jéssica. Um filme passa em sua cabeça, a primeira vez que a viu, o primeiro programa, depois os últimos momentos, as declarações de amor, toda a loucura que estavam fazendo.

“Por favor Deus, que nada de mal tenha acontecido com meu amor”.

Quando chega, Jéssica o espera na porta. Quando ela sacou o estilete, o homem se apavorou e levantou os abraços, sendo prontamente rendido. Saiu correndo e xingando enquanto descia a escada.

Emocionados, abraçam-se intensamente.

Lá fora, a lua brilha. Marés são influenciadas por ela, bem como loucos e amantes.

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Não sabia o que responder. Estava confusa, a cabeça a mil. Aquelas palavras, proferidas daquela forma por ele tiveram um profundo efeito sobre Jéssica. Não sabia o que dizer, ou melhor, sabia: almejava dizer o quanto o amava. Mas seu medo era maior. Pensava nas consequências. Pensava que jamais poderiam ser felizes. Não como ela gostaria.

Ao se recusar a andar de mãos dadas, Jéssica temia sobretudo a reação da sociedade. Tinha amigas que haviam sido literalmente apedrejadas por se atreverem a atitudes que afrontavam o status quo. Lia notícias de homossexuais mortos por beijar em público, por se atreverem a expor perante todos sua opção sexual. E ela mesma jamais havia se exposto. Seus relacionamentos sempre haviam sido discretos, escondidos, velados aos olhos de todos. Mesmo com tanta discrição, muitas vezes havia sido vítima de grosserias, de comentários maldosos e até de xingamentos. Jamais havia andado de mãos dadas com alguém na rua, jamais havia beijado alguém publicamente. Tinha medo por si e por Arnaldo. Tinha medo do ódio que as pessoas tem daquilo que não entendem.

A princípio o silêncio dela o surpreendeu. Podia-se quase dizer que o magoou, pois esperava alguma resposta. Sabia que tudo estava indo rápido demais, mas se deixava levar. Sentia que a amava e se sentia correspondido, então porque não expressar esse amor? Qual o problema? Não pensava na reação das pessoas, em sua família, nem em seus amigos. Pensava apenas que estava feliz. Para ele, tudo era simples assim.

Olharam-se fixamente sem dizer nada. Ela tinha os olhos verdes, e os dele eram castanhos escuros. Os olhos dela expressavam sua preocupação, seu medo, e os dele falavam de sua serenidade, de sua tranquilidade. Como você pode estar assim, ela perguntava-se, eu queria estar tão tranquila, tão despreocupada.

Ficaram em silêncio por um bom tempo. Até que o celular de Jéssica tocou.

_ Alô?

_ Oi amiga. Tá fazendo o que?

_ Hoje estou ocupada.

Sua amiga se assustou.

_ Sério? Quer ajuda?

_ Não precisa. Estou acompanhada já.

Sua amiga ficou eufórica.

_ kkkkkkkkk que máximo. Depois você me conta.

_ Tá. Tchau.

Desligou.

_ Quem era?

_ Uma amiga minha. Ela sempre me liga nesse horário.

_ Aquela que te ajuda a fazer nada?

_ kkkkkkkk essa mesmo.

_ Jéssica, eu … queria te pedir desculpas.

_ Pelo que?

_ Pelo que te disse … acho que te pressionei …

_ Meu lindo, não precisa pedir desculpas … aliás, eu que te peço … ainda estou me acostumando com tudo … as coisas estão acontecendo muito rápido.

_ Verdade.

_ Arnaldo, eu tenho medo. Tenho medo das pessoas. Tenho medo da reação delas. As pessoas são más, são preconceituosas. Elas me odeiam. Se pudessem, me matariam para não me ver nunca mais. E matariam quem anda comigo também. Por isso eu tenho medo. Tenho medo do que possam fazer comigo, tenho medo do que possam fazer contigo. Eu te amo demais …

_ Você o que?

Riram.

_ Eu te amo demais.

_ Eu também te amo muito.

Beijaram-se.

_ Minha linda, não se preocupe. Estou aqui com você. Eu te amo e vai dar tudo certo. Quer sair um pouco?

Já eram quase 18h. Jéssica havia perdido a noção de tempo.

_ Nossa. Está tarde. Preciso me arrumar para trabalhar.

_ O que? Está me expulsando?

_ Claro que não meu lindo … mas eu tenho contas para pagar …

_ Eu também tenho, e não fui trabalhar hoje …

_ kkkkkkk, verdade. Então tá. Vou ficar contigo. Mas vai ficar caro para você…

_ Quanto?

_ Quanto você quer pagar?

_ Quanto você cobra?

_ De você, tudo… e nada…

Beijaram-se.

Àquela altura estavam ambos com fome. Pediram uma pizza. Ela não queria sair. O fato é que temia encontrar com algum cliente, então disse que preferia ficar em casa.

Depois de comerem a pizza, sentaram no sofá e começaram a assistir um filme. Arnaldo cochilou. Acordou com o barulho do interfone e com Jéssica se levantando. Não atendeu, pois sabia do que se tratava. Apenas desconectou o fio do interfone, chamou Arnaldo e foram ambos para a cama.

Acordaram à meia noite com batidas na porta que os deixaram muito assustados. Arnaldo colocou rapidamente suas calças, ela colocou um roupão. Foram para a sala.

_ Quem é?

_ Abre, sou um cliente.

Jéssica não reconheceu a voz.

_ Hoje não estou atendendo.

_ Abre gostosa, vou te pagar o triplo!

_ Não, não. Já disse que hoje não estou atendendo.

_ Abre! Vamos!

Arnaldo interveio.

_ Rapaz, vai embora. Ela já disse que hoje não está atendendo.

Ele se calou. Ouviram-no saindo apressado, a porta lá embaixo abrindo e fechando logo em sequência.

Devagar, abriram a porta do apartamento. Ambos estavam apavorados. Ele desceu e foi verificar se a porta lá embaixo estava mesmo travada. Depois subiu.

_ Algum vizinho deve ter entrado e deixado a porta aberta … isso é um perigo …

_ Nossa, com certeza …

_ Tome cuidado!

_ Sim, sim.

Foram se deitar.

No dia seguinte Arnaldo acordou bem cedo. Precisava ir para a oficina. Depois de se arrumar e comer, foi se despedir.

_ Amor, estou indo.

_ Tá bem meu lindo. Você volta né? Mesmo horário?

_ 01h?

_ Sim. Hoje preciso trabalhar.

Sentiu-se desconfortável, porém novamente não disse nada.

_ Ok.

Jéssica foi com ele até a porta. Não desceu. Despediram-se ali mesmo.

Entre linhas (6)

Silêncio novamente.

Sobre o que pensaram? Quais pensamentos passaram por suas cabeças? Quais desejos escondidos, os quais vivem apenas dentro de cada um de nós, fizeram guarita secretamente em seus corações? Alguns dizem que nossas imperfeições e até mesmo nossos sofrimentos nos conduzem ao crescimento espiritual, mas porque mesmo os adeptos de tal filosofia evitam sofrer? Todos temos traumas, desilusões amorosas, feridas emocionais, abalos psíquicos, os quais são o legado que nos faz seres humanos. Somos imperfeitos desde nosso nascimento e levaremos nossas imperfeições até nossa morte. Nascemos, vivemos e morreremos sofrendo. E o maior dos sofrimentos é a dúvida. Esta habita constantemente junto a cada um de nós, desde nossas tomadas de decisões mais simples até àquelas mais complexas.

_ Que foi?

_ Nada.

_ Arrependido?

_ De que?

_ Você sabe … de nós … de tudo …

_ De nada. Não me arrependo de nada.

Aperta a mão de Jéssica. Ainda estão sentados na bancada da cozinha.

_ Eu também não me arrependo. E estou muito feliz agora. De verdade.

Beijam-se, levantam-se e vão para o sofá da sala. A sala de Jéssica é pequena, tem um sofá de apenas dois lugares, um rack e uma TV. Alguns quadros na parede, pintados pela própria Jéssica, enfeitam a sala, dando a ela um ar hospitaleiro. À direita está a varanda. Entre a cozinha e a sala há uma bancada com duas cadeiras para lanchonete modernas, onde agora a pouco estavam sentados. Arnaldo já havia percebido que no apartamento há outro quarto, o qual parece estar sempre fechado.

_ O que tem naquele quarto?

_ Quer ver?

_ Sim.

Levantam-se. Ela entra em seu quarto de dormir e sai de lá com uma chave. Abre a porta do outro quarto. Ele impressiona-se com a quantidade de livros. Não é muito de ler, mas se maravilha em descobrir algo dela que poucos conhecem. Sente-se honrado.

_ Uau! Estou impressionado. Não esperava isso.

Pega um dos livros aleatoriamente e o folheia. É um guia de viagens sobre a Espanha.

_ Já foi lá?

_ Uma vez. Fui com os meus pais ainda criança. Meu pai é descendente de espanhóis.

Arnaldo guarda o livro.

_ Vamos almoçar?

_ Sim. Estou morrendo de fome.

_ Já? Acabamos de tomar café, e você comeu muito.

_ Eu como muito.

Ela colocou um vestido confortável e ambos saíram. Estavam descontraídos, leves. O dia estava belo, o clima estava muito agradável. Até o instante em que ele tenta segurar sua mão. Ela se assusta.

_ Não. Na rua não.

_ Porque não?

_ Porque não!

Foram em silêncio ao restaurante, o qual não estava cheio. Sentaram-se em um lugar um pouco mais reservado onde poderiam conversar.

_ Arnaldo …

_ Desculpa.

_ Não precisa pedir desculpas.

Pegou então na mão de Arnaldo e a apertou. Ele puxou a mão dela e a beijou.

_ Eu gosto muito de você.

_ Eu também … por isso tenho medo.

_ Medo de que?

_ Medo dos outros Arnaldo. Medo de tudo. Você sabe …

Mas era difícil para Arnaldo entender porque ele próprio nunca havia passado por situações de preconceito social. Era branco, bonito, até então tinha tido apenas relacionamentos aceitos e até mesmo aplaudidos pela sociedade, sempre com belas mulheres, as quais eram alvo de cobiça por onde passavam.

_ Eu não me importo com os outros.

_ Você não sabe o que está dizendo. Não sabe …

Percebeu o quanto tal assunto a abalava e ficou profundamente comovido. Levantou-se, sentou ao seu lado e a abraçou. Ambos não repararam nos olhares desconfiados de alguns clientes, nem repararam nas gracinhas de alguns funcionários do restaurante, os quais conheciam Jéssica a algum tempo. Depois de algum tempo, ela se levantou e foi ao banheiro. Quando voltou, já refeita, chamou-o para almoçar.

Era um self-service. Serviram-se e sentaram-se. Jéssica estava animada, parecia outra pessoa.

_ A comida daqui é muito boa.

_ Que bom, porque eu estou morrendo de fome. Você vem sempre aqui?

_ Sim, a comida é ótima. Tem muita variedade. E o atendimento é bom.

_ Legal. Eu vi mesmo que tem muitas opções. Gostei.

Quando terminaram, ele não deixou que ela pagasse. Pagou todo o almoço. Saíram. No caminho, Arnaldo não tentou pegar novamente na mão dela.

Assim que Jéssica abriu a porta do apartamento ele a abraçou por trás, beijando seu pescoço. Fizeram sexo ali mesmo na sala, tomam mais um banho e vão nus para a cama do quarto.

_ O que estamos fazendo?

_ Muito sexo!

Riram.

_ Arnaldo …

_ Eu te amo Jéssica!

Entre linhas (5)

Quando Arnaldo chega no prédio onde Jéssica mora, já são 01:20h. Foi parado em uma blitz montada para surpreender motoristas que estivessem dirigindo alcoolizados. Desceu do carro, fez o teste do bafômetro, apresentou documentos e foi logo liberado.

Estava ansioso. Não tinha o hábito de chegar tão tarde naquela região da cidade, um local tranquilo, uma área comercial com apartamentos em cima das lojas. Jéssica morava e trabalhava em cima de um centro comercial onde haviam várias pequenas lojas, nenhuma muito grande ou de destaque.

Ao chegar próximo da entrada do apartamento, teve a sensação de ser observado. Parou e olhou ao seu redor, mas não viu nada. Não é nada, pensou.

Interfonou uma vez e não teve resposta. Novamente e nada. Pensou em desistir, mas tentou mais uma vez.

_ Alô?

_ Oi. Sou eu.

Escutou o zumbido da porta sendo destravada e entrou. Ao entrar, teve o cuidado de verificar que a porta estava travada.

Subiu as escadas. Não tinha elevador ali.

Quando chegou próximo a porta, ela já estava esperando. A porta foi aberta antes que ele batesse.

_ Entre!

Arnaldo entra e Jéssica fecha a porta. Ia se sentar, porém antes que o fizesse, ela corre e o abraça.

_ Achei que você não vinha mais. Até cochilei no sofá.

Não houve explicações. Não havia necessidade. Retribuiu o abraço, apertando-a contra si. Beijam-se.

Foi um beijo longo e apaixonado. Ambos estavam ansiosos por aquele momento, e aproveitaram cada segundo. Ele estava já muito excitado, e ela sentiu. Pegou sua mão e o levou para o quarto.

Ao chegar, continuaram a se beijar, ainda de pé, beijo ainda mais quente que o anterior. Ela rebolava e se esfregava nele, deixando-o cada vez mais excitado. Ele retribui com carícias suaves que subiam devagar das coxas dela ao pescoço, descendo novamente.

Ela abre o zíper de sua calça e enfia ambas as mãos dentro de sua cueca. Com uma mão, esfrega com carinho seu pênis e com a outra acaricia seu saco.

Param de se beijar no momento em que Jéssica tira a camisa de Arnaldo, sua calça e sua cueca. Ainda de calcinha, vira de costas, tirando a camisola devagar enquanto esfrega sua bunda no pênis dele.

Vira-se para Arnaldo mais uma vez e o empurra suavemente, mas com firmeza, para a cama. Ela pega a camisinha, coloca em seu pênis e começa a chupá-lo. Lambe seu saco, descendo até seu períneo. Arnaldo segura seu tesão sem ejacular.

Chama Jéssica para deitar a seu lado e a beija durante um longo tempo. Ela lubrifica a camisinha de Arnaldo com a saliva e se deita de costas para ele, empinando seu bumbum para que fosse penetrada. Arnaldo segura Jéssica pela cintura e a penetra devagar, fazendo suaves movimentos. Ela vira a cabeça e ele a beija.

Então, sem avisar e sem interromper a penetração, ele a empurra até que ela fique de bruços, ficando por cima dela. Em seguida interrompe a penetração e a puxa pela cintura para que ela fique de quatro. Ela empina a bunda e suplica:

_ Com força! Vai gostoso, mete com força vai!

Não se pode negar tal pedido. E Arnaldo não se faz de rogado.  Mete com força. Ela geme de dor e de prazer, sensações indissociáveis nesta situação. Ele continua assim até não aguentar mais e goza intensamente.

Deitaram-se lado a lado por alguns minutos. Então ela se levanta, pega papel higiênico e retira a camisinha do pênis de Arnaldo. Jéssica estava com seu pênis ereto. Arnaldo repara.

Ela se coloca novamente ao lado dele. Então, Arnaldo começa a acariciar o pênis dela. Jéssica ficou incomodada no início. Já teve clientes que gostavam de tocá-la, de chupá-la, que pediam para ser penetrados, mas Arnaldo nunca a tocou. Ela estava muito excitada e pede para ele parar. Levanta-se, pega um lubrificante e passa no seu pênis. Deita-se e pede para Arnaldo: continua!

Goza rapidamente, gemendo alto. Seus vizinhos nem se importam, pois, aqueles que estivessem acordados ainda, ou estariam fazendo algo semelhante ou já conheciam a rotina de Jéssica.

Abraçaram-se mais uma vez.

_ Amanhã a gente continua.

_ Não. Amanhã tenho que ir trabalhar.

_ Amanhã você vai ficar aqui comigo!

_ Tá ok. Acho que posso dar um jeito.

Beijaram-se. Jéssica virou de costas para Arnaldo, que dormiu rapidamente. Ela não dormiu. Tinha insônia e demorava a pegar no sono. Levantou-se, colocou um roupão e foi para a varanda. Lá fora, o vento estava agradável. Era noite de noite de lua cheia, fase da lua que, segundo a astrologia, significa plenitude, auge. Era assim que ela se sentia agora. Plena. Não lembrava quando havia sido a última vez que havia se sentido assim. Temia a necessidade de conversar com Arnaldo, a imprevisibilidade da reação dele. Era extremamente insegura. Gostava de ter o controle da situação, mas agora, por sentir algo que jamais havia sentido por outra pessoa, percebia-se como alguém perdida, sem saber qual o próximo passo a dar e quais as consequências de suas ações. Navegava em águas jamais navegadas por ela. Entretanto, sentia que não abandonaria o leme. Agora que o primeiro passo havia sido dado, não desistiria nem voltaria atrás. Apesar do medo, ansiava ver o que o futuro reservava a eles.

Lá fora, um grupo de jovens voltando de alguma festa. Não a viram na varanda. Ela pensou neles, pensou em si. Deveria ter a idade deles, ou talvez até fosse mais nova. Entretanto, não saia como eles, assim livremente, conversando com amigos na rua, rindo alto, sem preocupações. Sentiu-se melancólica de repente.

_ Acordada?

_ Ai, me mata logo Arnaldo!

Riram. Assustou-se com a aproximação furtiva dele. Na varanda onde estavam, havia somente a iluminação da lua. Abraçaram-se; estava excitado, e ela sentiu.

Voltaram para a cama. Fizeram amor mais uma vez antes de dormir.

Acordaram praticamente juntos, por volta de 09h. Para ela estava cedo, mas para ele não.

_ Bom dia!

_ Bom dia meu lindo! Dormiu bem?

_ Sim. Mas preciso fazer uma ligação.

_ Pode fazer. Fica a vontade.

Ele se levantou. Colocou apenas sua cueca e foi fazer a ligação na sala.

_ Centro Automotivo Souza, bom dia!

_ Bom dia. Pedro?

_ Sim. Quem fala?

_ Não tá conhecendo minha voz?

_ Ô Arnaldo. Quem é vivo sempre aparece. E aí o que o senhor manda?

_ Hoje não irei aí.

Pedro se preocupou. Isso nunca tinha acontecido antes.

_ Aconteceu alguma coisa chefe?

_ Não estou bem. É … meio indisposto …

Arnaldo era um péssimo mentiroso.

_ Sei … tudo bem chefe. Eu tenho a chave. Pode deixar que deixo tudo aqui certinho.

_ Queria te pedir um favor. Peça ao Miguelão para dar uma olhada no Peugeot e no Renault. O Scénic, o Logan não. Ok?

Miguelão era um dos seus melhores mecânicos.

_ Ok. Ele já sabe o que é?

Não sabia. Era melhor explicar pessoalmente.

_ Chama o Miguelão aí para eu falar com ele.

_ Miguelãããããããããão! Miguelãããããããããão! Que foi? O Arnaldo quer falar aqui contigo! Que Arnaldo? O chefe rapaz! Ôxi, e ele não vem aqui hoje não? Alô?

_ Opa Miguelão. Beleza?

_ Tudo tranquilo. Diga!

_ Seguinte Miguelão, Hoje eu não irei aí na oficina. Não estou muito bem … precisava que você desse uma olhada no Scénic e no 207.

_ Aham … eu tava mexendo naquele Linea que chegou ontem …

_ Mas ele pode esperar. Prioriza o Scénic e o 207.

_ Ok. Qual o problema deles?

_ O 207 não está passando da segunda para a terceira marcha, e o Scénic …

_ Péra, péra. Mas o 207 não é automático? Aí não é comigo chefe, o especialista é você!

_ Caralho, verdade. Foi mal Miguelão. Deixa então. Eu mexo nele depois.

_ E o Scénic?

_ Bomba de combustível.

_ Só?

_ Acho que sim. Tem que trocar e testar.

_ Ok. Pode deixar então.

_ Chama o Pedro aí.

_ Peeedrooooo! Toma aí, o chefe quer falar contigo. Oi!

_ Oi Pedro. Entendeu então né? Fecha aí direitinho ok?

_ Pode deixar chefe, não se preocupe.

_ Valeu Pedro. Obrigado.

_ Valeu chefe. Melhoras.

_ Obrigado. Até amanhã.

_ Até.

Voltou para o quarto. Ela estava deitada de lado, nua, olhando o celular.

_ Vamos tomar um banho?

Ela não disse nada, apenas levantou-se e foi para o chuveiro, olhando-o maliciosamente. Ele a seguia com seus olhos, com sua mente e com todo o seu corpo.

Ambos estavam muito excitados. Beijaram-se. Ela pegou o sabonete, passou em sua mão e lavou seu pênis.

Jéssica se abaixa e pergunta:

_ Posso?

_ Como assim?

_ Sem camisinha!

_ Pode sim.

Foi uma sensação nova para ambos. Sempre foram muito cuidadosos. Mas o calor do desejo os tornava inconsequentes e descuidados.

Jéssica levanta-se e vira-se de costas.

Se sexo oral sem camisinha constituía para ambos algo improvável até bem pouco tempo, penetração sem preservativo parecia algo impossível. Porém, foi o que aconteceu. Naquele momento, Arnaldo ficou assustado durante um segundo, mas toda sua razão logo se esvaneceu. O sexo foi intenso mais uma vez, agora acentuado pelo perigo da situação, pelo risco que ambos corriam. Nada mais importava. Independente de qualquer coisa, confiavam plenamente um no outro. Ainda não haviam se declarado, mas não importava: a realidade é que amavam-se integralmente. Aquele momento, como todo momento especial, passou para eles em câmera lenta, e era assim que se lembrariam dele.

Depois do banho, ambos estavam calados.

_ Está tudo bem?

_ Tá sim! Tá com fome?

_ Tô.

_ Não tenho nada para comer aqui. Vou no supermercado comprar algo.

_ Vou com você.

O coração de Jéssica disparou. Não sabia porquê.

_ Não precisa.

_ Mas eu quero. Vou fazer o que aqui? A não ser que você não queira.

_ Eu não sei se eu quero.

Dizendo isso, sentou. Não sabia o que queria. Não sabia o que pensar. Estava com medo. Queria chorar, mas não conseguia.

_ Calma. Deixa que eu vou.

_ Mas você volta?

_ kkkkk que pergunta. Claro que sim. A não ser que você não queira.

Saiu e voltou logo com frutas, pães, biscoitos e suco.

_ Nossa! Exagerado! Não precisava isso tudo.

_ Eu como muito!

_ Eu já vi que seu apetite é grande mesmo …

Foram para a cozinha. Já era quase 12h, mesmo assim Arnaldo comeu bastante. Jéssica comeu apenas frutas.

_ Vai fazer o que hoje?

_ Nada!

_ Quer ajuda?

_ kkkkkkkkkkk

_ Que foi?

_ Você! Disse exatamente o que uma amiga minha diz.

_ O que?

_ Ela pergunta o que vou fazer, eu digo nada e ela oferece ajuda!

_ Nossa! Kkkkkk pois é, como não vou trabalhar hoje, já que você não deixou, posso te ajudar aqui … fazendo nada com você.

_ Você tinha muito serviço para fazer?

_ Um pouco. Já te disse que sou mecânico né?

_ Disse sim.

_ Uma coisa não disse. Sou o dono da oficina.

_ Sério? Que legal. E porquê tá dizendo agora? Ostentação?

_ Não, não. Apenas me senti a vontade para dizer.

Falou olhando nos olhos dela.

_ Nossa. Ficou vermelha.

_ Você. Me deixou sem graça.

_ Quer dizer que você é tímida?

_ Sou sim.

_ Não pensei que fosse.

_ Por causa do sexo?

_ Não, sei lá … você não me parece tímida.

_ É?

Silêncio.

_ Estamos nos conhecendo de verdade agora.

Mais silêncio.

_ E eu estou gostando muito de conhecer você.

_ Que bom, porque eu também estou.

Entre linhas (4)

Assim que Jéssica entra em seu apartamento, percebe que o dia será longo. Não fazem nem 15 minutos que Arnaldo foi embora, e já sente sua falta. Teme que ele não volte à 01h, horário combinado por eles, afinal, tudo pode ter sido apenas mais uma aventura louca. Caso ele não volte, o que fará? Ora, continuar sua vida normalmente, com o coração machucado sim, mas sempre em frente.

Tira suas roupas e vai tomar um banho. Debaixo da ducha, pensa sobre tudo o que aconteceu. Está feliz, mas também preocupada. Terá sido muito ingênua? Teve poucos relacionamentos amorosos em seus 19 anos de vida, portanto tem motivos para se preocupar. Enquanto profissional do sexo, manteve sempre distância afetiva de seus clientes, pois, ainda que com um ou com outro possa ter eventualmente ocorrido uma sensação a mais, um desejo maior, foram sensações fugazes, restritas a momentos ínfimos. Em sua vida particular, foi alvo de preconceito social desde muito cedo. Não sabe localizar com precisão quando se sentiu diferente dos outros meninos, mas acredita que se sentiu assim desde sempre. Ao chegar na adolescência não restavam mais dúvidas sobre o que desejava para sua vida sexual. Sempre foi alguém com características muito femininas, fato que não passou desapercebido dos garotos que compunham seu círculo de amizades no colégio, tornando comuns os encontros sexuais nos banheiros, nos becos, nos quartos fechados, enfim, em qualquer local escondido dos demais. No início tais encontros eram muito mais de descoberta de desejos do que de realização destes, pois se reduziam a carícias, toques, afagos. Com o desenrolar da puberdade, a intensidade de tais encontros foi se intensificando até culminar na primeira penetração. Daí decorreram a segunda, a terceira, sempre com parceiros diferentes, todos amigos do colégio, os quais exigiam sigilo absoluto. Um destes amigos foi seu primeiro amor. Ficaram juntos durante aproximadamente 01 ano e meio, mantendo relações constantes, quando ambos tinham por volta dos 16 anos. Foi nessa época que iniciou a terapia hormonal, tornando suas características femininas ainda mais acentuadas. Não demorou para que seus pais percebessem a mudança e o expulsassem de casa. Perdeu contato com seu namorado, sabendo algum tempo depois que este havia engravidado uma colega do colégio. Nunca contou nada para ninguém do relacionamento que ambos mantinham, pois encontravam-se sempre em absoluto segredo, e jamais o faria. Fora de casa, encontrou abrigo temporário na casa de amigos. Por influência deles, iniciou-se cedo na prostituição, conseguindo logo alugar um apartamento de 2 quartos apenas para si. Seus clientes pagavam caro por minutos de prazer. Tinha menos de 18 anos ao iniciar-se na prostituição, mas seus clientes não se importavam, nem perguntavam sua idade. Era bonito e extremamente sensual. Por volta dos 18 anos, já muito feminino, com silicones nos seios e na bunda, passou a exigir ser tratada como mulher. Tornou-se Jéssica de corpo e alma.

Sai do banho enrolada numa toalha, troca de roupa e coloca a suja na máquina de lavar. Seu apartamento tem dois quartos, um dos quais fica sempre trancado quando tem clientes. Abre a porta desse quarto, revelando de um lado uma estante enorme cheia de livros, sua paixão maior, e do outro uma escrivaninha na qual senta para ler. Começa a ler um romance. Este foi-lhe indicado por um cliente. Tinha três livros consigo no momento do programa, os outros dois não se lembra do título de forma alguma, mas este chamou-lhe a atenção.

_ 2666? É sobre o que?

_ Gosta de ler?

_ Um pouco.

_ É um livro de literatura. São cinco romances em um.

_ E porque 2666?

_ 666 não é o número da besta?

_ Sim.

_ Então, 2666 é o mal em dobro. Duas vezes o mal.

Gostou. No dia seguinte a primeira coisa que fez foi pesquisar no google. 2666 é de um autor chileno, Roberto Bolãnos, e exatamente como seu cliente havia dito são cinco romances em um. Parece interessante, pensa ela, comprando na mesma hora em um site de venda de livros. Uma semana depois o livro chegou. Isso foi há um mês atrás. Gostou muito, mas está lendo devagar. Terminou o primeiro romance e está no segundo.

Levanta-se depois de um bom tempo de leitura e divagações. Estica-se toda como se quisesse tocar o teto com as mãos, ronronando como uma gata. Em seguida, vai até a cozinha e abre a geladeira. Tira uma garrafa de suco e bebe diretamente da caixa. Está perto da hora do almoço, então não come nada agora, apesar de sentir fome. Vai até a varanda e olha o movimento lá fora. O tempo demora a passar quando se acorda cedo demais. Em outros dias, estaria acordando agora, ficaria mais alguns minutos deitada, com muita preguiça para se levantar, fazendo isso somente quando já estivesse próximo da hora de almoçar. Agora, fica um tempo na varanda e começa a pensar em sua vida. Sonha em terminar os estudos. Desde muito cedo estudou em escola particular, pois seus pais tiverem sempre uma boa estabilidade financeira. Estudou nas melhores escolas particulares, fez curso de inglês desde os 06 anos de idade, o que a possibilita hoje falar inglês de forma fluente. Mesmo assim, devido a expulsão da casa dos pais, não terminou o segundo grau. Mas pensa em terminar o ensino médio o quanto antes, pois sonha em fazer faculdade.

Seus pensamentos são interrompidos pela fome. Coloca um vestido e desce. Vai ao mesmo restaurante de sempre, um que fica próximo ao seu apartamento. Ali todos os funcionários a conhecem e a tratam bem. O almoço está ótimo como sempre.

Volta para seu apartamento e troca de roupa, colocando roupas de academia. Duas horas depois do almoço vai andando para a academia, a qual, como o restaurante, fica próximo ao seu apartamento. Não tem carteira de motorista, portanto ao alugar um apartamento escolheu um com boa localização, próximo a restaurantes, academia e supermercado, tudo que precisa para viver o seu dia a dia, o qual, como visto, é deveras tranquilo e pacato.

Voltando para seu apartamento, toma mais um banho e em seguida fica um bom tempo olhando Facebook e Instagram.

Seu celular toca.

_ Alô?

_ Oi amiga!

_ Oi linda! Como vai?

_ Eu vou bem e você? Tá fazendo o que?

_ De sempre … nada!

_ kkkk eu também. Quer ajuda?

_ kkkk quero sim!

_ Tô indo.

_ Ok.

Em 15 minutos sua amiga chega. Passam o restante da tarde conversando. Despedem-se às 18h, pois ambas começarão em breve a trabalhar.

Começa a se preparar para a noite de trabalho assim que sua amiga sai.

Lápis nos olhos.

Batom preto.

Lingerie vermelha.

Baby look branco, com grande decote.

Mini saia preta curtíssima.

Salto alto.

Quando chega em seu ponto, um cliente já a espera. Percebe em seus olhos o quanto ele está excitado em vê-la. Pensa que ele já estava ali há um bom tempo, mas não pergunta. Conversam e combinam o programa. Ele não quer subir, prefere ir para um motel. Ela não se opõe, desde que ele a traga de volta.

Depois do programa, muito satisfeito, o cliente a traz como combinado.

Outro cliente já está esperando.

Este é um cliente habitual. É casado, portanto não podem demorar. Sobem e terminam rapidamente. Lá fora, despendem-se como bons amigos.

21h. Não quero atender mais ninguém, pensa. Está frio. Não que não esteja acostumada com o frio da noite. Mas hoje pensa em Arnaldo. Está ansiosa para vê-lo novamente.

Logo, um Toyota Corolla estaciona próximo onde ela está e abaixa o vidro para conversar.  Os últimos são sempre os mais complicados, e não poderia ser diferente hoje. Trata-se de um casal que deseja uma aventura diferente. Informam que ela foi recomendada por outro casal amigo deles, o qual havia sido atendido a aproximadamente um mês atrás. Como tais casos não são muito comuns, lembra-se deles. Informa que custará o dobro do preço habitual. Aceitam prontamente.

Sobem.

Assim que o pagamento é feito, Jéssica coloca uma música para tocar no aparelho de som, aprovada pelo casal. Dança para eles enquanto ambos ficam sentados, a mulher atrás de seu marido fazendo-lhe massagem nas costas. Jéssica tira suas roupas em um intenso e sensual strip tease. Então, apenas de calcinha e sutiã, levanta o homem e tira suas roupas. Seu membro já está ereto. Ela se abaixa, coloca a camisinha e começa a chupá-lo. A mulher então se levanta, observando tudo e tirando suas próprias roupas. Deita-se na cama com as pernas abertas e chama Jéssica, que agora tira toda sua roupa, indo deitar-se em cima dela. Começa lambendo seus seios, bem devagar. A mulher geme. O esposo observa, excitadíssimo. A mulher empurra levemente a cabeça de Jéssica, que entende e atende prontamente. Desce e lambe sua vagina. A mulher geme alto, chegando logo ao orgasmo. Seu esposo ainda está com a camisinha que foi utilizada durante o sexo oral e se posiciona para penetrar Jéssica, que estava de quatro. Ela pede para ele esperar um pouco, pega um lubrificante que estava à mão, e passa em seu ânus e na camisinha de seu cliente. Fica novamente de quatro e pede:

_ Mete gostoso vai!

Ao final, todos estão felizes.

Todos, menos Jéssica.

Ela desce com eles, mas não volta para seu ponto. Já são 23h. Quer esperar por Arnaldo, ainda que ele não venha hoje. Toma um banho caprichado, coloca sua melhor calcinha e camisola, esquenta um leite no micro-ondas, e senta-se em frente à TV para esperar. Próximo da meia noite, o interfone toca. Seu coração bate acelerado, mas é só outro cliente. Ela então informa que hoje não irá atender mais ninguém.

Entre linhas (3)

Quando Arnaldo chega em sua oficina começa logo a trabalhar, porém seus pensamentos estão nos braços de Jéssica. Seus companheiros de serviço perceberam rapidamente que naquele dia ele estava diferente, distante, calado demais, e ele não era assim. Com eles, conversava banalidades, participava das rodas de conversa, comentando sobre filmes que assistiu na TV ou outros assuntos corriqueiros. Apesar de ser dono da oficina, não se furtava a agir como mais um mecânico dentre os outros, sendo que qualquer um que ali chegasse jamais pensaria que aquele homem simples, humilde, prestativo, fosse o chefe dos demais mecânicos. Além de chefe, era um dos poucos mecânicos especialistas em reparo de câmbio automático em sua região; consequentemente, o serviço prestado em sua oficina não era barato. Ainda assim era bastante procurado, sendo indicado até mesmo por outras oficinas mecânicas. Ele era absolutamente honesto, buscando sempre fazer orçamentos que correspondessem ao problema apresentado. Detestava mecânicos que tirassem proveito da ignorância alheia, pois havia aprendido desde cedo a importância de uma boa reputação em seu meio. Mecânicos desonestos não tinham vez na oficina dele.

Era o terceiro filho de uma família de quatro irmãos. Sua mãe havia falecido ainda jovem, no parto de seu irmão caçula, o qual morava com seu pai no interior. Todos os outros irmãos haviam saído de casa. O mais velho havia conseguido conciliar estudos e trabalho e se formou em Direito, atuando no ramo do Direito Penal. O segundo mais velho trabalhava na área administrativa de um hospital particular. Todos eles eram distantes de Arnaldo, cada um vivendo sua vida com suas respectivas famílias.

Constituir família própria, ter filhos, havia sido um sonho em uma época de sua vida. Entretanto, nunca havia encontrado alguém para levar este sonho adiante. Seus relacionamentos anteriores nunca duravam muito, pois era sempre visto por suas companheiras como alguém muito distante. E de fato, ele o era. Não conseguia expressar amor. Não conseguia se declarar para ninguém. O amor foi sempre algo estranho para ele. O amor era algo para se ver nas novelas, mas que em sua própria vida nunca havia experimentado. Amar verdadeiramente lhe parecia algo praticamente impossível. Quando alguém não recebe amor, não pode dar amor, pois como dar o que não se tem? Mais que um sentimento efêmero, fugaz, o qual é apenas paixão, o amor é um estilo de vida que ao ser praticado, ao ser vivido, mantêm-se no decorrer da vida. Quem não vive amando não sabe o que é o amor. Pode viver uma paixão temporária e achar que é amor. Mas quando o fogo da paixão se apaga, pensa logo que o amor acabou. Porém, terá ele existido em algum momento?

12h. Hora de almoçar. Arnaldo pensou em ligar para Jéssica, mas como não combinaram nada, desistiu da ideia. Tinha medo de ser inconveniente uma vez que o combinado foi de se verem novamente apenas 01h da manhã. Almoçou com seus colegas, quase não ouvindo o que falavam, acenando com a cabeça maquinalmente quando alguém falava com ele. Estava ali apenas corporalmente, sua cabeça e seu coração estavam em outro lugar.

Pensava. Sofria.

O que ela está fazendo agora? Será que está pensando em mim? Estará almoçando também? Não sabia onde ela almoçava. Reparara que na sua casa tinham fogão e geladeira, mas será que ela preparava sua comida ou almoçava fora? Almoçava sozinha ou com amigos?

Teria Jéssica mais alguém além dele?

Ao pensar isso, balançou a cabeça nervosamente e se levantou. Chega! Começava a sofrer demais! Não queria pensar mais nada! Já havia terminado de comer. Levantou-se deixando meio copo de refrigerante na mesa. Seus companheiros perceberam o quanto estava nervoso e não falaram nada, pois o respeitavam. Apenas quando ele saísse os risinhos e comentários maldosos começariam. Todos já suspeitavam que ali havia um mal de amor e sabiam que contra esse mal não há remédio.

Voltando para a oficina começou imediatamente a trabalhar. Haviam dois carros aos quais ele dedicaria sua atenção. Um deles, um Peugeot 207, automático, ano 2009, ao circular não passava da segunda para a terceira marcha. Seu dono estava aflito, pois já havia levado seu carro para manutenção em outras oficinas. Indicaram a ele sua oficina e ele realmente já sabia o que fazer. Já havia consertado outro carro similar com o mesmo problema. O segundo carro que estava aos seus cuidados, um Renault Scénic, automático, ano 2005 havia acabado de entrar. Veio rebocado, e seu dono informou que ele simplesmente não conseguia dar a partida. Não era problema de bateria, pois toda a parte elétrica funcionava. Suspeitava que poderia ser problema na bomba de combustível e começou a investigar. Era especialista em câmbio automático, mas era também um grande conhecedor de mecânica geral.

Quando Arnaldo dá por si já são 18h. Nem reparou que todos os outros mecânicos já foram embora até que o último vem se despedir. Esteve tão absorto em seu trabalho que o tempo voou rápido demais. Está exausto, mas sente-se bem. Nunca foi como outros donos de oficina, que não pegam no batente. Gosta demais do ofício mecânico para abrir mão dele. Agora, é questão de pouco tempo para voltar a ver Jéssica. Já se esqueceu dos pensamentos sombrios que teve durante o almoço, voltando a concentrar-se apenas no encontro que terá. Toma um bom banho na ducha que instalou no banheiro da oficina apenas para si, um dos únicos privilégios exclusivos que tem ali. Coloca suas roupas limpas, leva seu jaleco sujo para lavar em casa e pega algum dinheiro no caixa.

Vai para seu carro. Dirige para seu apartamento, mas no caminho passa no mercado e compra pão, suco, biscoitos e algumas frutas. Ao chegar, coloca seu jaleco para lavar na máquina e vai para a cozinha, passa manteiga no pão e come com suco. Levanta-se novamente, pega uma maçã, lava e vai se sentar em frente a televisão. Liga e começa a procura por programas interessantes. Tem mais de 100 canais, mas se ele assiste a 01 ou 02 é muito. Coloca nos canais de filme e começa a assistir um que parece interessante. Um cara meio careca, bem vestido, dirigindo um carro em alta velocidade. Está levando uma mulher, ela muito assustada. É uma perseguição. Outros carros, o perseguindo, atiram atrás dele. O protagonista dirige como ninguém, coisa de filme, ele pensa.

Não percebeu quando dormiu. Acorda assustado. São 23h. Está ansioso. Pensa em sair logo de casa, mas avalia que ainda está muito cedo. Começa novamente a procurar algum programa interessante na TV, mas não acha nada. Volta aos canais de filmes. Um de terror está passando e parece interessante.

O

Tempo

Parece

Não

Passar

Mas passa. De repente já são 00h. Arnaldo se levanta. Está eufórico. Seu coração bate forte. Não se sentia assim desde o colegial, quando ainda era adolescente. Tira o jaleco da máquina e estende no varal. Vai tomar mais um banho, faz a barba, escova os dentes, passa perfume e troca novamente de roupa.

Sai às 00h45m e vai ao encontro de Jéssica.

Entre linhas (2)

_ Ficar?

_ Sim, fique!

Arnaldo não acreditava nas palavras de Jéssica. Ficou um bom tempo parado, estático, sem saber direito o que fazer. Jéssica então o puxou para dentro, o abraçou forte, e sussurrou em seu ouvido obscenidades que o deixaram muito excitado. Depois de fazerem sexo mais uma vez, adormeceram juntos.

No dia seguinte ambos acordaram cedo. Não era do costume de Jéssica acordar cedo tendo em vista que trabalhava até tarde. Mas como também nunca havia dormido com um cliente, acordou cedo tentando entender ainda o porquê de sua atitude e, ainda que estivesse feliz, chamava-se a si mesma de louca, desvairada, e se perguntava o que faria dali para frente.

Arnaldo acordou pouco depois. Estava feliz. Em seus relacionamentos anteriores, havia sido sempre uma pessoa retraída. Mas, por algum motivo, agora sentia-se bem, sentia-se livre. Passou as mãos no cabelo de Jéssica com carinho, afagando ela devagar.

_ Preciso ir trabalhar.

_ Não quer ficar mais?

_ Quero, mas preciso ir.

_ Ok.

Não sabiam direito o que dizer um ao outro. Ambos estavam ainda assustados, naquele medo de amantes que não sabem bem ainda o que esperar do outro. O amor nunca brota sozinho, vem sempre acompanhado de outros sentimentos. No caso deles, havia felicidade, mas havia também ainda muita insegurança. Há momentos na vida em que o medo é importante, pois te impede de correr riscos desnecessários. Mas se o medo domina a pessoa ela não vive, apenas vê a vida passar diante de si.

Arnaldo se levanta. Não sabe direito o que fazer. Começa colocando suas roupas, vai ao banheiro, penteia o cabelo com as mãos. Tudo observado pelo olhar de Jéssica.

_ Então … até mais.

_ Espera.

_ O quê?

_ Você volta?

_ Se conseguir mais dinheiro …

_ Bobo! Não precisa …

Arnaldo beija Jéssica.

_ Venho que horas?

_ 01h. Pode ser?

_ Tão tarde?

_ É o horário que paro de atender.

Arnaldo sentiu-se desconfortável. Porém, calou-se.

Jéssica se levanta. Está de calcinha e sutiã, os cabelos desarrumados. Vai ao banheiro e se arruma. Veste uma bermuda jeans curtinha e uma camiseta baby look. Em seguida, vai com Arnaldo à cozinha.

_ Quer comer?

_ Quero! Diz Arnaldo, pegando no bumbum de Jéssica.

_ Bobo! Aqui tem biscoito. Pega o suco na geladeira.

Depois de comerem, saem.

Jéssica desce com ele. Na rua, não andam de mãos dadas. Jéssica queria, contudo não diz nada, uma vez que seu medo é maior que seu desejo. Pode ser alguém desinibida sexualmente, mas em sua vida particular é muito reservada.

Arnaldo não pensa em nada disso. Está preocupado com o horário, pois já está muito atrasado. A rotina em uma oficina mecânica começa cedo, então precisa correr. Está com pressa. Quando chegam ao carro, despedem-se.

_ Então, até mais tarde.

_ Até.

Quando ele vai embora, ela mal se aguenta dentro de si. Há muito tempo não sente esse frio na barriga, esse sentimento inexplicável e intenso. Volta para seu apartamento tendo atrás de si olhares de homens indo trabalhar, os quais olham lascivamente para sua bela bunda.

Arnaldo está a 80 km/h, em uma via de 60 km/h, em direção à oficina mecânica.