Caminhando, caminhando, caminhando …

Era só mais um dia em minha vida. Nada especial, apenas mais um dia. Caminhando pela rua, nada parecia diferente. O sol me incomodava com seu brilho, pois estava sem óculos escuro. Os carros passavam próximo a mim. O vento soprava, sem muita força, mas o suficiente para fazer com que eu me arrependesse em parte de caminhar. Em parte, pois caminhar é sempre um prazer para mim. Prefiro sempre caminhar a me locomover de carro. Quando caminho, sinto-me vivo, sinto-me conectado aos outros ao meu redor e a uma realidade maior, ainda que não consiga nomeá-la.

De repente, gritos. O que está acontecendo? Ouço pessoas gritando. Uma mulher passa por mim, correndo e chorando, apavorada. Som de tiros. Algazarra, balbúrdia total. Apesar de tudo, continuo andando. Não modifico minha rota, não tento me esconder. Nem eu mesmo consigo explicar minha reação, em fluxo contrário à reação comum. A adrenalina não me afetou, minha tranquilidade não se abalou, nem com os gritos, nem com os tiros, nem com a correria. Continuo andando, como o vento continua a andar e o sol continua a brilhar.

Um homem pára em minha frente. Revólver na mão, apontado para mim. Está suado, ofegante, e parece assustado. Há sangue escorrendo pela sua cabeça, ao que parece fruto de uma forte pancada. Aparentemente ele não se deu conta da pancada e do sangue. Seu ímpeto, sua cólera, bloqueia toda dor. Admiro tanta bílis, tanta força, tanto ímpeto. Mesmo que eu me esforçasse não conseguiria reagir de forma tão exaltada. Não o conheço, não conheço sua história, seus traumas, seus desejos, suas motivações. Para que tanta raiva? Por que tanto ódio?

Ele grita. Xinga obscenidades. Nem escuto direito, não entendo o que ele quer. Nem sei se ele quer mesmo alguma coisa. Parece-me que no momento há apenas um desabafo de sua parte, a raiva exaltada ao extremo, expressa numa profusão de palavrões sem nexo e sem encadeamento lógico. Aliás, a lógica é a última coisa presente na cena. O caos impera, de forma bruta e contundente.

Faço então a única coisa que poderia fazer: continuo a andar. Caminho, sem me importar com o homem na minha frente, sem me importar com sua cólera e seus motivos, sem me importar com a arma na sua mão. Toda balbúrdia, correria, gritos, é externa a mim; em minha essência só há o desejo de caminhar. Sigo minha essência e vou caminhando, caminhando, caminhando …

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