Entre linhas (5)

Quando Arnaldo chega no prédio onde Jéssica mora, já são 01:20h. Foi parado em uma blitz montada para surpreender motoristas que estivessem dirigindo alcoolizados. Desceu do carro, fez o teste do bafômetro, apresentou documentos e foi logo liberado.

Estava ansioso. Não tinha o hábito de chegar tão tarde naquela região da cidade, porém era um local muito tranquilo, uma área comercial com apartamentos em cima das lojas. Jéssica morava e trabalhava em cima de um centro comercial onde haviam várias pequenas lojas, nenhuma muito grande ou de grande destaque.

Ao chegar próximo da entrada do apartamento, teve a sensação de ser observado. Parou e olhou ao seu redor, mas não viu nada. Não é nada, pensou.

Interfonou uma vez mas não teve resposta. Interfonou novamente e nada. Pensou em desistir, mas tentou mais uma vez.

_ Alô?

_ Oi. Sou eu.

Escutou o zumbido da porta sendo destravada e entrou. Ao entrar, teve o cuidado de verificar que a porta estava travada.

Subiu as escadas. Não tinha elevador ali.

Quando chegou próximo a porta, Jéssica já estava esperando por ele. A porta foi aberta antes que ele batesse.

_ Entre!

Arnaldo entrou e Jéssica fechou a porta. Ia se sentar, porém antes que o fizesse, Jéssica correu e o abraçou.

_ Achei que você não vinha mais. Até cochilei no sofá.

Arnaldo não explicou nada. Não havia necessidade. Retribuiu o abraço, apertando Jéssica contra si. Desceu as mãos para a bunda de Jéssica. Beijaram-se.

Foi um beijo longo e apaixonado. Ambos estavam ansiosos por aquele momento, e aproveitaram cada segundo. Arnaldo estava já muito excitado, e ela sentiu. Pegou na mão de Arnaldo e o levou para o quarto.

Ao chegar, continuaram a se beijar, ainda de pé, beijo ainda mais quente que o anterior. Jéssica rebolava e se esfregava em Arnaldo, o qual ficava cada vez mais excitado, retribuindo com carícias suaves que subiam devagar das coxas dela ao pescoço, descendo novamente.

Jéssica então abriu o zíper da calça de Arnaldo e enfiou as duas mão dentro de sua cueca. Com uma mão, esfregava com carinho seu pênis e com a outra acariciava seu saco.

Pararam de se beijar no momento em que Jéssica tirou a camisa de Arnaldo, sua calça e sua cueca. Continuou a beijá-lo e a tocar em suas partes íntimas. Por um breve momento. Ainda de calcinha, virou de costas e esfregou sua bunda no pênis de Arnaldo, aproveitando também para tirar a camisola. Arnaldo ajudou-a a tirar o sutiã, apertando em seguida seus seios com ambas as mãos.

Jéssica se virou para Arnaldo mais uma vez e o empurrou suavemente para a cama. Ele se deitou. Jéssica pegou a camisinha, colocou no pênis de Arnaldo e começou a chupá-lo. Lambia seu saco, descendo até seu períneo. Arnaldo não se aguentava de tesão, mas não ejaculou.

Chamou Jéssica para deitar a seu lado e a beijou novamente durante um longo tempo. Ela então lubrificou a camisinha de Arnaldo com a saliva e se deitou de costas para ele, empinando seu bumbum para que fosse penetrada. Arnaldo segurava Jéssica pela cintura, fazendo suaves movimentos. Jéssica virou a cabeça e ele a beijou, mordendo seus lábios devagar, sua orelha e pescoço.

Então, sem avisar e sem interromper a penetração, Arnaldo empurrou Jéssica para que ela ficasse de bruços e ele por cima dela. Depois puxou-a pela cintura para que ela ficasse de quatro. Jéssica empinou sua bunda, dizendo em seguida, num tom de voz que parecia uma súplica:

_ Com força! Vai gostoso, mete com força vai!

Arnaldo sentiu que não poderia negar semelhante pedido. Metia com toda força seu pênis em Jéssica. Ela gemia de dor e de prazer, sensações indissociáveis nesta situação. Arnaldo continuou assim até não aguentar mais. Gozou intensamente.

Deitou ao lado de Jéssica. Ela se levantou, pegou papel higiênico e retirou a camisinha do pênis de Arnaldo, limpando-o. Foi ao banheiro. Jéssica estava com o pênis ereto. Arnaldo reparou, mas não comentou nada.

Voltou do banheiro ainda muito excitada. Arnaldo pediu que ela deitasse.

Ela se deitou e Arnaldo começou a acariciar seu pênis. Jéssica ficou incomodada no início. Já teve clientes que gostavam de tocá-la, de chupá-la, que pediam para ser penetrados, mas Arnaldo nunca a tocou. Jéssica estava muito excitada. Deitou com o peito para cima, deixando-se ser acariciada por Arnaldo. Ele começou a masturbá-la. Jéssica pediu que ele parasse. Levantou-se, pegou um lubrificante e passou no seu pênis. Deitou-se e disse para Arnaldo: Continua!

Jéssica ejaculou rapidamente, gemendo alto. Seus vizinhos nem se importavam, pois, aqueles que estivessem acordados ainda, ou estariam fazendo algo semelhante ou já conheciam a rotina de Jéssica.

Arnaldo se levantou antes de Jéssica e foi ao banheiro. Limpou Jéssica com carinho, voltando em seguida ao banheiro.

Ao se deitar do lado de Jéssica, ambos nus, se abraçaram mais uma vez, beijando-se e se acariciando.

_ Amanhã a gente continua.

_ Não. Amanhã tenho que ir trabalhar.

_ Amanhã você vai ficar aqui comigo!

_ Tá ok. Acho que posso dar um jeito.

Beijaram-se. Jéssica virou de costas para Arnaldo, que dormiu rapidamente. Jéssica não. Tinha insônia, demorava a dormir. E naquela noite, estava muito feliz. Levantou-se, colocou um roupão e foi para a varanda. Lá fora, o vento estava agradável, a lua estava bela. Era noite de noite de lua cheia. Jéssica gostava de astrologia, e sabia que a lua cheia significava plenitude, auge. Era assim que se sentia agora. Sentia-se em sua plenitude, em seu auge emocional. Não lembrava bem quando havia sido a última vez que havia se sentido assim. Sabia que precisava conversar com Arnaldo. E iria fazê-lo, apesar de temer tal momento, pois não sabia bem como seria. Gostava de ter sempre o controle da situação, e com Arnaldo sentia-se desarmada, entregue, e mesmo assim segura, protegida, plena.

Lá fora, um grupo de jovens voltando de alguma festa. Não viram Jéssica. Ela pensou neles, pensou em si. Deveria ter a idade deles, ou talvez até fosse mais nova. Entretanto, não saia como eles, assim livremente, conversando com amigos na rua, rindo alto, sem preocupações. Sentiu-se melancólica de repente.

_ Acordada?

_ Ai, me mata logo Arnaldo!

Riram. Jéssica levou um baita susto com a aproximação furtiva de Arnaldo. Havia somente a iluminação da lua, portanto estava um pouco escuro. Ele a abraçou e ela sentiu que ele estava com o pênis ereto novamente.

Voltaram para a cama. Fizeram amor mais uma vez antes de dormir.

Acordaram praticamente juntos, Arnaldo acordando primeiro. Assustou-se, pois já eram 09h. Para Jéssica estava ainda cedo, mas para Arnaldo já era muito tarde. Não estava acostumado a acordar neste horário, pois gostava de chegar cedo na oficina.

_ Bom dia!

_ Bom dia meu lindo! Dormiu bem?

_ Sim. Mas preciso fazer uma ligação.

_ Pode fazer. Fica a vontade.

Ele se levantou. Colocou apenas sua cueca e foi fazer a ligação na sala.

_ Centro Automotivo Souza, bom dia!

_ Bom dia. Pedro?

_ Sim. Quem fala?

_ Não tá conhecendo minha voz?

_ Ô Arnaldo. Quem é vivo sempre aparece. E aí o que o senhor manda?

_ Hoje não irei aí.

Pedro se preocupou. Isso nunca tinha acontecido antes.

_ Aconteceu alguma coisa chefe?

_ Não estou bem. É … meio indisposto …

Arnaldo era um péssimo mentiroso.

_ Sei … tudo bem chefe. Eu tenho a chave. Posso deixar que deixo tudo aqui certinho.

_ Queria te pedir um favor. Peça ao Miguelão para dar uma olhada no Peugeot e no Renault. O Scénic, o Logan não. Ok?

Miguelão era um dos seus melhores mecânicos.

_ Ok. Ele já sabe o que é?

Não sabia. Era melhor explicar pessoalmente.

_ Chama o Miguelão aí para eu falar com ele.

_ Miguelãããããããããão! Miguelãããããããããão! Que foi? O Arnaldo quer falar aqui contigo! Que Arnaldo? O chefe rapaz! Ôxi, e ele não vem aqui hoje não? Alô?

_ Opa Miguelão. Beleza?

_ Tudo tranquilo. Diga!

_ Seguinte Miguelão, Hoje eu não irei aí na oficina. Não estou muito bem … precisava que você desse uma olhada no Scénic e no 207.

_ Aham … eu tava mexendo naquele Linea que chegou ontem …

_ Mas ele pode esperar. Prioriza o Scénic e o 207.

_ Ok. Qual o problema deles?

_ O 207 não está passando da segunda para a terceira marcha, e o Scénic …

_ Péra, péra. Mas o 207 não é automático? Aí não é comigo chefe, o especialista é você!

_ Caralho, verdade. Foi mal Miguelão. Deixa então. Eu mexo nele depois.

_ E o Scénic?

_ Bomba de combustível.

_ Só?

_ Acho que sim. Tem que trocar e testar.

_ Ok. Pode deixar então.

_ Chama o Pedro aí.

_ Peeedrooooo! Toma aí, o chefe quer falar contigo. Oi!

_ Oi Pedro. Entendeu então né? Fecha aí direitinho ok?

_ Pode deixar chefe, não se preocupe.

_ Valeu Pedro. Obrigado.

_ Valeu chefe. Melhoras.

_ Obrigado. Até amanhã.

_ Até.

Voltou para o quarto. Jéssica estava deitada de lado, nua, olhando o celular.

_ Vamos tomar um banho?

Jéssica não disse nada. Levantou-se e foi para o chuveiro, olhando maliciosamente para Arnaldo, que foi logo atrás dela.

Ambos estavam muito excitados. Beijaram-se. Jéssica pegou o sabonete, passou em sua mão e esfregou o pênis de Arnaldo para limpá-lo bem.

Jéssica se abaixou e perguntou:

_ Posso?

_ Como assim?

_ Sem camisinha!

_ Pode sim.

Jéssica o chupou sem camisinha, sensação nova para ambos. Jéssica sempre foi cuidadosa com isso. Arnaldo, idem. Mas o calor do tesão os tornava inconsequentes e descuidados.

Jéssica levantou-se e se virou de costas.

Arnaldo ficou assustado durante um segundo, mas estava com muito tesão. Enfiou seu pênis sem usar camisinha. Jéssica pediu que ele gozasse fora dela, e assim aconteceu.

Depois do banho, ambos estavam calados, num silêncio constrangedor. Refeitos do tesão, pensavam sobre toda a loucura que estava acontecendo.

_ Está tudo bem?

_ Tá sim! Tá com fome?

_ Tô.

_ Não tenho nada para comer aqui. Vou no supermercado comprar algo.

_ Vou com você.

O coração de Jéssica disparou. Não sabia porquê.

_ Não precisa.

_ Mas eu quero. Vou fazer o que aqui? A não ser que você não queira.

_ Eu não sei se eu quero.

Dizendo isso, sentou. Não sabia o que queria. Não sabia o que pensar. Estava com medo. Queria chorar, mas não conseguia.

_ Calma. Deixa que eu vou.

_ Mas você volta?

_ kkkkk que pergunta. Claro que sim. A não ser que você não queira.

_ Isso é o que eu mais quero: você aqui comigo.

Perante essas palavras, Arnaldo sentiu-se feliz de uma maneira inexplicável. Não disse mais nada. Saiu.

Voltou com frutas, pães, biscoitos e suco.

_ Nossa! Exagerado! Não precisava isso tudo.

_ Eu como muito!

_ Eu já vi que seu apetite é grande mesmo …

Foram para a cozinha. Já era quase 12h, mesmo assim Arnaldo comeu bastante. Jéssica comeu apenas frutas.

_ Vai fazer o que hoje?

_ Nada!

_ Quer ajuda?

_ kkkkkkkkkkk

_ Que foi?

_ Você! Disse exatamente o que uma amiga minha diz.

_ O que?

_ Ela pergunta o que vou fazer, eu digo nada e ela oferece ajuda!

_ Nossa! Kkkkkk pois é, como não vou trabalhar hoje, já que você não deixou, posso te ajudar aqui … fazendo nada com você.

_ Você tinha muito serviço para fazer?

_ Um pouco. Já te disse que sou mecânico né?

_ Disse sim.

_ Uma coisa não te disse. Sou o dono da oficina.

_ Sério? Que legal. E porquê tá dizendo agora? Ostentação?

_ Não, não. Apenas me senti a vontade para dizer.

Falou olhando nos olhos de Jéssica. Ela ruborizou.

_ Nossa. Ficou vermelha.

_ Você. Me deixou sem graça.

_ Quer dizer que você é tímida?

_ Sou sim.

_ Não pensei que fosse.

_ Por causa do sexo?

_ Não, sei lá … você não me parece tímida.

_ É?

Silêncio.

_ Estamos nos conhecendo de verdade agora.

Mais silêncio.

_ E eu estou gostando muito de conhecer você.

_ Que bom, porque eu também estou gostando muito de te conhecer.

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Entre linhas (4)

Assim que Jéssica entra em seu apartamento, percebe que o dia será longo. Não fazem nem 15 minutos que Arnaldo foi embora, e já sente sua falta. Teme que ele não volte à 01h, horário combinado por eles, afinal, tudo pode ter sido apenas mais uma aventura louca. Caso ele não volte, o que fará? Ora, continuar sua vida normalmente, com o coração machucado sim, mas sempre em frente.

Tira suas roupas e vai tomar um banho. Debaixo da ducha, pensa sobre tudo o que aconteceu. Está feliz, mas também preocupada. Terá sido muito ingênua? Teve poucos relacionamentos amorosos em seus 19 anos de vida, portanto tem motivos para se preocupar. Enquanto profissional do sexo, manteve sempre distância afetiva de seus clientes, pois, ainda que com um ou com outro possa ter eventualmente ocorrido uma sensação a mais, um tesão maior, foram sensações fugazes, restritas a momentos ínfimos. Em sua vida particular, foi alvo de preconceito social desde muito cedo. Não sabe localizar com precisão quando se sentiu diferente dos outros meninos, mas acredita que se sentiu assim desde sempre. Ao chegar na adolescência não restavam mais dúvidas sobre o que ele desejava para sua vida sexual. Sempre foi alguém com características muito femininas, fato que não passou desapercebido dos garotos que compunham seu círculo de amizades no colégio, tornando comuns os encontros sexuais nos banheiros, nos becos, nos quartos fechados, enfim, em qualquer local escondido dos demais. No início tais encontros eram muito mais de descoberta de desejos do que de realização destes, pois se reduziam a carícias, toques, afagos. Com o desenrolar da puberdade, a intensidade de tais encontros foi se intensificando até culminar na primeira penetração. Daí decorreram a segunda, a terceira, sempre com parceiros diferentes, todos amigos do colégio, os quais exigiam sigilo absoluto. Um destes amigos foi seu primeiro amor. Ficaram juntos durante aproximadamente 01 ano e meio, mantendo relações constantes, quando ambos tinham por volta dos 16 anos. Foi nessa época que iniciou a terapia hormonal, tornando suas características femininas ainda mais acentuadas. Não demorou para que seus pais percebessem a mudança e o expulsassem de casa. Perdeu contato com seu namorado, sabendo algum tempo depois que este havia engravidado uma colega do colégio. Nunca contou nada para ninguém do relacionamento que ambos mantinham, pois encontravam-se sempre em absoluto segredo, e jamais o faria. Fora de casa, encontrou abrigo temporário na casa de amigos, mas teve logo de sair por conta de brigas e desentendimentos. Como precisava de dinheiro para a terapia hormonal, já havia se iniciado na prostituição, não sendo difícil em consequência encontrar apartamento para morar. Seus clientes pagavam caro por minutos de prazer, sendo que ele conseguiu rapidamente fazer uma clientela que ansiava por suas habilidades sexuais, fato que lhe rendeu um bom dinheiro. Tinha menos de 18 anos ao iniciar-se na prostituição, mas seus clientes não se importavam, nem perguntavam sua idade. Era bonito e extremamente sensual. Por volta dos 18 anos, já muito feminino, com silicones nos seios e na bunda, passou a exigir ser tratada como mulher. Tornou-se Jéssica de corpo e alma.

Jéssica sai do banho enrolada numa toalha. Troca de roupa e coloca a suja na máquina de lavar. Seu apartamento tem dois quartos, um dos quais fica sempre trancado quando tem clientes. Abre a porta desse quarto, revelando de um lado uma estante enorme cheia de livros, sua paixão maior, e do outro uma escrivaninha na qual senta para ler. Ali já está um dos livros aos quais está lendo, Maus, de Art Spiegelman, perspectiva de um judeu sobre o holocausto nazista ocorrido na segunda grande guerra. Não é a primeira vez que o lê, mas a terceira. É apaixonada por livros com essa temática. Além deste, outro livro ao qual leu mais de uma vez foi O Diário de Anne Frank. Emociona-se sobremaneira com a injustiça com a qual foram tratados os judeus, os assassinatos em massa, o desespero. Já leu que homossexuais também foram vítimas do terror nazista, e talvez por isso sente-se ainda mais próxima, ainda mais conectada ao tema. Em sua vida, além da expulsão da casa dos pais e do afastamento de muitos que se diziam amigos, sofre cotidianamente o preconceito da sociedade hipócrita e machista onde vive. Quando sai de casa, são muitos os olhares tortos que recebe, tanto de homens quanto de mulheres. Conhece bem a hipocrisia contida em tais olhares, pois muitos dos quais os dirigem olhares reprovadores de dia, de noite gemem de prazer em sua cama. A hipocrisia da humanidade não tem limites, Jéssica sabe muito bem disso.

Troca de livro. Começa a ler outro romance. Este que começa foi-lhe indicado por um cliente com o qual conversou sobre literatura contemporânea. Tinha três livros consigo no momento do programa, os outros dois não se lembra de forma alguma, mas este chamou-lhe a atenção por conta do título.

_ 2666? É sobre o que?

_ Gosta de ler?

_ Um pouco.

_ É um livro de literatura. São cinco romances em um.

_ E porque 2666?

_ 666 não é o número da besta?

_ Sim.

_ Então, 2666 é o mal em dobro. Duas vezes o mal.

Gostou. No dia seguinte a primeira coisa que fez foi pesquisar no google. 2666 é de um autor chileno, Roberto Bolãnos, e exatamente como seu cliente havia dito são cinco romances em um. Parece interessante, pensa ela, comprando na mesma hora em um site de venda de livros. Uma semana depois o livro chegou. Isso foi há um mês atrás. Gostou muito, mas está lendo devagar. Terminou o primeiro romance e está no segundo.

Depois de 2 horas de leitura Jéssica se levanta. Se estica toda como se quisesse tocar o teto com as mãos, ronronando como uma gata. Em seguida, vai até a cozinha e abre a geladeira. Tira uma garrafa de suco e bebe diretamente da caixa. Está perto da hora do almoço, então não come nada agora, apesar de sentir fome. Vai até a varanda e olha o movimento lá fora. O tempo demora a passar quando se acorda cedo demais. Em outros dias, estaria acordando agora, ficaria mais alguns minutos deitada, com muita preguiça para se levantar, fazendo isso somente quando já estivesse próximo da hora de almoçar. Agora, fica um tempo na varanda e começa a pensar em sua vida. Sonha em terminar os estudos. Desde muito cedo estudou em escola particular, pois seus pais tiverem sempre uma boa estabilidade financeira. Estudou nas melhores escolas particulares, fez curso de inglês desde os 06 anos de idade, o que a possibilita hoje falar inglês de forma fluente. Mesmo assim, devido a expulsão da casa dos pais, não terminou o segundo grau. Mas pensa em terminar o ensino médio o quanto antes, pois sonha em fazer faculdade.

Seus pensamentos são interrompidos pela fome. Coloca um vestido e desce. Vai ao mesmo restaurante de sempre, um que fica próximo ao seu apartamento. Ali todos os funcionários a conhecem e a tratam muito bem. O almoço está ótimo como sempre.

Volta para seu apartamento e troca de roupa, colocando roupas de academia. Duas horas depois do almoço vai andando para a academia, a qual, como o restaurante, fica próximo ao apartamento de Jéssica. Jéssica não tem carteira de motorista, portanto ao alugar um apartamento escolheu um com boa localização, próximo a restaurantes, academia e supermercado, tudo que precisa para viver o seu dia a dia, o qual, como visto, é deveras tranquilo e pacato.

Voltando para seu apartamento, toda suada, Jéssica tira a roupa que colocou cedo na máquina de lavar e coloca dentro suas roupas de academia. Toma mais um banho, ligando o computador logo em seguida. Fica um tempo olhando facebook e instagram. Seu celular toca.

_ Alô?

_ Oi amiga!

_ Oi linda! Como vai?

_ Eu vou bem e você? Tá fazendo o que?

_ De sempre … nada!

_ kkkk eu também. Quer ajuda?

_ kkkk quero sim!

_ Tô indo. Beijos!

_ Tchau.

Em 15 minutos chega a amiga de Jéssica. Vêm de carro, por isso chega rápido, pois mora um pouco longe. Passam o restante da tarde conversando. Próximo das 18h, a amiga se despede. Como Jéssica, logo mais ela começará também a trabalhar.

Quando sua amiga sai, Jéssica começa a se preparar para a noite de trabalho.

Cabelos soltos (que logo serão presos, devido ao vento).

Lápis nos olhos.

Batom preto.

Lingerie vermelha.

Baby look branco, com grande decote.

Mini saia preta curtíssima.

Salto alto.

Quando chega em seu ponto, um cliente já a espera. Percebe em seus olhos o quanto ele está excitado em vê-la. Pensa que ele já estava ali há um bom tempo, mas não pergunta. Conversam e combinam o programa. Ele não quer subir, prefere ir para um motel. Jéssica não se opõe, desde que ele a traga de volta.

Depois do programa, o cliente a traz de volta como combinado.

Outro cliente já está esperando.

Este é um cliente habitual de Jéssica. É casado, portanto não podem demorar. Sobem, terminam rapidamente e Jéssica desce mais uma vez.

21h. Jéssica não quer atender mais. Está um pouco frio hoje. Não que Jéssica não esteja acostumada com o frio da noite. Mas hoje pensa em Arnaldo. Está ansiosa por vê-lo novamente.

Um novo cliente chega. Jéssica pensa logo que os últimos são sempre os mais complicados, e não poderia ser diferente hoje. Trata-se de um casal. Querem uma aventura diferente, por isso procuram Jéssica. Informam que Jéssica foi recomendada por outro casal amigo deles, o qual ela havia atendido a aproximadamente um mês atrás. Como tais casos não são muito comuns, ela se lembra deles. Informa que custará o dobro do programa comum. Aceitam prontamente.

Sobem.

Assim que o pagamento é feito, Jéssica coloca uma música para tocar no aparelho de som, aprovada pelo casal. Ela dança para eles, enquanto ambos ficam sentados, a mulher atrás de seu marido fazendo-lhe massagem nas costas. Jéssica tira suas roupas em um intenso e sensual strip tease. Então, apenas de calcinha e sutiã, levanta o homem e tira suas roupas. Seu membro já está ereto. Ela se abaixa, coloca a camisinha e começa a chupá-lo. A mulher então se levanta, observando tudo e tirando suas roupas. Deita-se na cama de Jéssica de pernas abertas e a chama. Jéssica agora tira toda sua roupa, e vai se deitar em cima dela. Começa lambendo seus seios, bem devagar. A mulher geme. O esposo observa, excitadíssimo. A mulher empurra levemente a cabeça de Jéssica, que entende e atende prontamente. Desce e começa a lamber sua vagina. A mulher geme alto, chegando logo ao orgasmo. Seu esposo ainda está com a camisinha que foi utilizada durante o sexo oral e se posiciona para penetrar Jéssica, que estava de quatro. Jéssica pede para que ele espere um pouco, pega um lubrificante que estava à mão, e passa em seu ânus e na camisinha de seu cliente. Fica novamente de quatro e pede:

_ Mete gostoso vai!

Ao final, todos estão felizes.

Menos Jéssica.

Ela desce com eles, mas não volta para seu ponto. Já são 23h. Quer esperar por Arnaldo, ainda que ele não venha hoje. Toma um banho caprichado, coloca sua melhor lingerie e camisola, esquenta um leite no micro-ondas, e senta-se em frente à TV para esperar. Depois que senta, lembra-se da roupa de academia na máquina de lavar, então levanta novamente, estende a roupa e se senta mais uma vez. Próximo da meia noite, o interfone toca. O coração de Jéssica bate acelerado, mas é só outro cliente. Ela então informa que hoje não irá mais atender ninguém.

Entre linhas (3)

Arnaldo chega em sua oficina e começa logo a trabalhar, porém seus pensamentos estão nos braços de Jéssica. Seus companheiros de serviço perceberam rapidamente que naquele dia ele estava diferente, distante, calado demais, e ele não era assim. Com eles, conversava banalidades, participava das rodas de conversa, comentando sobre filmes que assistiu na TV ou outros assuntos corriqueiros. Apesar de ser dono da oficina, não se furtava a agir como mais um mecânico dentre os outros, e qualquer um que ali chegasse jamais pensaria que aquele homem simples, humilde, prestativo, fosse o chefe dos demais mecânicos. Além de chefe, era um dos poucos mecânicos especialistas em reparo de câmbio automático em sua região, e consequentemente o serviço prestado em sua oficina não era barato. Ainda assim era bastante procurado, sendo indicado até mesmo por outras oficinas mecânicas. Arnaldo era absolutamente honesto, buscando sempre fazer orçamentos que correspondessem ao problema apresentado. Detestava mecânicos que tirassem proveito da ignorância alheia, pois havia aprendido desde cedo a importância de uma boa reputação em seu meio. Mecânicos desonestos não tinham vez na oficina dele.

Arnaldo era o terceiro filho de uma família de quatro irmãos. Sua mãe havia falecido ainda jovem, no parto de seu irmão caçula, o qual morava com seu pai no interior. Todos os outros irmãos haviam saído de casa ainda jovens. O mais velho havia conseguido conciliar estudos e trabalho e se formou em Direito, atuando no ramo do Direito Penal. O segundo mais velho trabalhava na área administrativa de um hospital particular. Todos eles eram distantes de Arnaldo, cada um vivendo sua vida com suas respectivas famílias.

Constituir família própria, ter filhos, havia sido um sonho em uma época de sua vida. Entretanto, nunca havia encontrado alguém para levar este sonho adiante. Seus relacionamentos anteriores nunca duravam muito, pois Arnaldo era sempre visto por suas companheiras como alguém distante, reservado, introspectivo. De fato, ele era assim. Não conseguia expressar amor. Não conseguia se declarar para ninguém. O amor foi sempre algo estranho para ele. O amor era algo para se ver nas novelas, mas que em sua própria vida nunca havia experimentado. Amar verdadeiramente lhe parecia algo praticamente impossível. Quando alguém não recebe amor, não pode dar amor, pois como dar o que não se tem? Mais que um sentimento efêmero, fugaz, o qual é apenas paixão, o amor é um estilo de vida que ao ser praticado, ao ser vivido, mantêm-se no decorrer da vida. Quem não vive amando não sabe o que é o amor. Pode viver uma paixão temporária e achar que é amor. Mas quando o fogo da paixão se apaga, pensa logo que o amor acabou. O fato porém é que provavelmente ele nunca existiu.

12h. Hora de almoçar. Arnaldo pensou em ligar para Jéssica, mas como não combinaram nada, desistiu da ideia. Tinha medo de ser inconveniente uma vez que o combinado foi de se verem novamente apenas 01h da manhã. Almoçou com seus colegas, quase não ouvindo o que falavam, acenando com a cabeça maquinalmente quando alguém falava com ele. Arnaldo estava ali apenas corporalmente, sua cabeça e seu coração estavam com Jéssica.

Pensava. Sofria.

O que ela está fazendo agora? Será que ela está pensando em mim? Estará almoçando também? Não sabia onde ela almoçava. Reparara que na sua casa tinham fogão e geladeira, mas será que ela preparava sua comida ou almoçava fora? Almoçava sozinha ou com amigos?

Teria Jéssica mais alguém além dele?

Ao pensar isso, balançou a cabeça nervosamente e se levantou. Chega. Começava a sofrer demais. Não queria pensar mais nada. Já havia terminado de comer seu arroz, feijão, macarrão carne, alface e tomate. Levantou-se deixando meio copo de refrigerante na mesa. Seus companheiros perceberam o quanto estava nervoso, mas não falaram nada com ele, pois o respeitavam. Apenas quando Arnaldo saísse os risinhos e logo depois as gargalhadas e comentários maldosos iriam começar. Todos já suspeitavam de que mal Arnaldo padecia. E como bons amigos, tiravam sarro.

Voltando para a oficina, Arnaldo foi logo começar a trabalhar. Haviam dois carros aos quais ele dedicaria sua atenção. Um deles, um Peugeot 207, automático, ano 2009, ao circular não passava da segunda para a terceira marcha. Seu dono estava aflito, pois já havia levado seu carro para manutenção em outras oficinas. Indicaram a ele a oficina de Arnaldo, e Arnaldo realmente sabia o que fazer. Já havia consertado um outro carro similar com o mesmo problema. O outro carro que estava na oficina para Arnaldo mexer, um Renault Scénic, automático, ano 2005 havia acabado de entrar. Veio rebocado, e seu dono informou que ele simplesmente não conseguia dar a partida. Não era problema de bateria, pois toda a parte elétrica funcionava. Arnaldo suspeita que pode ser problema na bomba de combustível, e começa a investigar. Era especialista em câmbio automático, mas era também um grande conhecedor de mecânica geral.

Quando Arnaldo deu por si, já são 18h. Nem reparou que todos os outros mecânicos já foram embora até que o último vem se despedir. Esteve tão absorto em seu trabalho que o tempo voou rápido demais. Está exausto, mas sente-se feliz. Agora, é questão de pouco tempo para voltar a ver Jéssica. Já se esqueceu dos pensamentos sombrios que teve durante o almoço, e agora volta a pensar apenas no encontro que terá. Toma um bom banho na ducha que instalou no banheiro da oficina apenas para si, um dos únicos privilégios exclusivos que tem ali. Coloca suas roupas limpas, leva seu jaleco sujo para lavar em casa. Nunca foi como outros donos de oficina, que não pegam no batente. Arnaldo gosta demais do ofício mecânico para abrir mão dele.

Vai para seu carro. Dirige para sua casa, mas no caminho passa no mercado e compra pão, suco, biscoitos e algumas frutas. Ao chegar em casa, coloca seu jaleco para lavar na máquina e vai para a cozinha, passa manteiga no pão e come com suco. Ao todo come três pães, pois àquela altura já estava com muita fome. Levanta-se, pega uma maçã, lava e vai se sentar em frente a televisão. Liga e começa a procura por programas interessantes. Tem em sua casa mais de 100 canais, mas se ele assiste a 01 ou 02 é muito. Coloca nos canais de filme e começa a assistir um filme que parece ser interessante. Um cara meio careca, bem vestido, dirigindo um carro em alta velocidade. Está levando uma mulher, ela muito assustada. É uma perseguição. Outros carros, o perseguindo, atiram atrás dele. O protagonista dirige como ninguém, coisa de filme, pensa Arnaldo.

Não percebeu quando dormiu. Acorda assustado. São 23h. Está ansioso. Pensa em sair logo de casa, mas acha que está muito cedo. Começa novamente a procurar algum programa interessante na TV, mas não acha nada. Volta aos canais de filmes. Um filme de terror está passando, parece interessante.

O

Tempo

Parece

Não

Passar

Mas passa. De repente já são 00h. Arnaldo se levanta. Está eufórico. Seu coração bate forte. Não se sentia assim desde o colegial, quando ainda era adolescente. Tira o jaleco da máquina e estende no varal. Vai tomar mais um banho, faz a barba, escova os dentes, passa perfume e troca novamente de roupa.

Sai de casa às 00h45m e vai ao encontro de Jéssica.

Entre linhas (2)

_ Ficar?

_ Sim, fique!

Arnaldo não acreditava nas palavras de Jéssica. Ficou um bom tempo parado, estático, sem saber direito o que fazer. Jéssica então o puxou para dentro, o abraçou forte, e sussurrou em seu ouvido que não queria mais dormir sozinha. Arnaldo então retribuiu o abraço, e disse a ela que ficaria.

No dia seguinte ambos acordaram cedo. Não era do costume de Jéssica acordar cedo, em geral dormia até bem tarde, tendo em vista que trabalhava até tarde. Mas como também nunca havia dormido com um cliente, acordou cedo, tentando entender ainda o porquê de sua atitude e, ainda que estivesse feliz, chamava-se a si mesma de louca, desvairada, e se perguntava o que faria dali para frente.

Arnaldo acordou logo depois de Jéssica. Sentia-se feliz, mas não sabia como dizê-lo. Em seus relacionamentos anteriores, havia sido sempre uma pessoa retraída. Mas, por algum motivo, sentia que agora poderia fazer diferente. Sentia-se bem, sentia-se livre. Passou as mãos no cabelo de Jéssica com carinho, afagando ela devagar. Jéssica gostou, sorrindo e fechando os olhos.

_ Preciso ir trabalhar.

_ Não quer ficar mais?

_ Quero, mas preciso ir.

_ Ok.

Não sabiam direito o que dizer um ao outro. Ambos estavam ainda assustados, naquele medo de amantes que não sabem bem ainda o que esperar do outro. O amor nunca brota sozinho, vem sempre acompanhado de outros sentimentos. No caso deles, havia felicidade, mas havia também ainda muita insegurança. Há momentos na vida em que o medo é necessário, pois te impede de correr riscos que poriam até mesmo sua própria vida em risco. Mas se o medo domina a pessoa, esta não vive, apenas vê a vida passar diante de si, paralisada demais que está para tomar qualquer atitude.

Arnaldo se levanta. Não sabe direito o que fazer. Começa colocando suas roupas, vai ao banheiro, penteia o cabelo com as mãos. Tudo observado pelo olhar de Jéssica.

_ Então … até mais.

_ Espera.

_ O quê?

_ Você volta?

_ Se conseguir mais dinheiro …

_ Bobo! Não precisa …

Arnaldo beija Jéssica.

_ Venho que horas?

_ 01h. Pode ser?

_ Tão tarde?

_ É o horário que paro de atender.

Arnaldo sentiu-se desconfortável com isso. Mas sentia que não podia dizer.

_ Ok.

Jéssica se levanta. Está de calcinha e sutiã, os cabelos desarrumados. Vai ao banheiro, se arruma. Sai e coloca uma calça e uma camiseta preta baby look do Metallica.

_ Uau! Metallica!

_ Você gosta?

_ Muito! Sou fã!

Jéssica sorri.

_ Quer comer?

_ Quero! Diz Arnaldo, pegando no bumbum de Jéssica.

_ Bobo! Aqui tem biscoito. Pega o suco na geladeira.

Depois de comerem, Arnaldo sai.

Jéssica desce com ele.

Na rua, não andam de mãos dadas.

Não sabem bem o porquê.

Jéssica queria. Mas não diz nada.

Arnaldo não pensa nisso. Está preocupado com o horário, pois já está muito atrasado. A rotina em uma oficina mecânica começa cedo, então precisa correr.

Chega no carro.

_ Então, até mais tarde.

_ Até.

Quando Arnaldo vai embora, Jéssica mal se aguenta dentro de si. Há muito tempo não sente esse frio na barriga, essa felicidade inexplicável, intensa, quase intoxicante. Volta para seu apartamento, tendo atrás de si olhares de alguns homens indo trabalhar, os quais olham lascivamente para sua bela bunda.

Arnaldo está a 80 km/h, em uma via de 60 km/h, em direção à oficina mecânica.

Entre linhas

Depois de um sexo gostoso, nada melhor do que virar para o lado e dormir. Mas ele não pode fazer isso. Precisa ir embora, precisa ir para casa, ainda que cada molécula de seu corpo grite para ficar ali, com aquele homem com corpo de mulher chamado Jéssica que, durante 30 minutos, proporcionou a ele intensos momentos de prazer. Mas tem de ir para casa. Precisa voltar para a solidão, voltar para seu apartamento úmido, cheirando a mofo, sujo e desarrumado. Ainda que ele odeie essa situação, não consegue modificá-la. Saindo, pega na bunda de Jéssica, agradece e lhe dá um beijo na boca. Neste momento, pensa que se tivesse mais 80 reais para pagar por mais um programa, pagaria com prazer. Mas seu dinheiro acabou. Literalmente, profundamente, verdadeiramente. Nem sabe o que irá comer amanhã. Ainda assim, não se importa, pois não pensa no amanhã. Seu ofício de mecânico de automóveis dá a ele a possibilidade de fazer dinheiro quase todos os dias, então se acostumou a não pensar, não planejar o dia seguinte. Vive como uma máquina consertando máquinas de outras máquinas.

Sai com o mesmo travesti a seis meses. Chega no mesmo ponto, pelo menos uma vez por semana, pontualmente às 21h. Gosta de Jéssica, nome utilizado por sua amante, pois consegue ter com ela sensações nunca vividas com nenhuma mulher. Jéssica entende, pois está acostumada com essa situação. Em seu ofício, já atendeu homens (e até algumas mulheres) das mais diversas profissões e lugares, das mais diversas religiões e posições sociais, ricos, pobres, pastores, padres, homens casados e solteiros, gordos, magros, feios, bonitos. Atende a todos, sem nenhuma discriminação. Mas entre Jéssica e Arnaldo rola algo diferente. Jéssica percebe e teme. Sabe que em sua profissão, apaixonar-se é um grande risco, afinal as fronteiras entre o sexo e o amor podem ser confundidas, deturpadas, distorcidas, falseadas.

Mas Jéssica não se importa mais. Cansou de sua vida solitária. Sente que precisa construir um relacionamento duradouro, um relacionamento que vá além do sexo e que proporcione a ela carinho, afeto, amor. Nos últimos dias, sofre por ter conhecido Arnaldo, pois vislumbra em seus olhos o mesmo sentimento. Não consegue explicar esse sentimento, não consegue defini-lo ou entende-lo, mas sente-o como algo verdadeiro, bonito, intenso e profundo. Almeja conversar com Arnaldo sobre isso, mas tem medo. Entende que ele, típico “macho alfa” da sociedade, possa ter medo, possa não aceitar esse relacionamento que seria difícil para ambos, com toda a raiva que a sociedade hipócrita, mentirosa, fascista (mas que se diz cristã) irá sentir. Ainda assim, Jéssica não suporta mais. Ao ver Arnaldo sair pela porta mais uma vez, sente que irá desfalecer se deixá-lo sair. Em um movimento mais de desespero do que de reflexão, mais de emoção do que de razão, segura seu braço, e num tom de voz que mais parece um suspiro, suplica:

_ Fique!