De)/(vagar

Preocupar-se excessivamente

Não resolverá nada

Ainda que saiba disso

Dessa verdade absoluta

Nada posso fazer

Me preocupo da mesma forma.

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IX

Subindo no monte mais alto

Sozinho

Cajado em uma mão, lamparina na outra

Olho

O vilarejo está quieto

Penso

Tantas vidas, tantos sonhos e expectativas

Sofro

Viver é sofrer, refletir na vida é enfado

Desço

Em direção aos meus.

J.H.C. e o Natal

Li hoje a respeito de um Mestre em Literatura, formado pela UnB, que vive nas ruas.

Triste situação essa. A de alguém que devotou boa parte de seu tempo, de seu esforço e dedicação, aos livros e ao estudo teórico e se encontra em uma situação extrema.

A reportagem diz que ele trabalhava, mas a faculdade onde lecionava faliu, ficando o mesmo desempregado.

Diz ainda que ele tinha projeto de Doutorado aprovado numa universidade da Bahia, mas que até o momento não pôde, devido a sua condição atual, voltar aos estudos em âmbito acadêmico.

Mas é Natal. As pessoas estão felizes. Congratulam-se, fazem festas, comem e bebem. Riem e divertem-se.

Enquanto isso, nas ruas, mestres passam frio e fome …

Triste.

Entre linhas (8)

O amor prega peças; quando menos esperamos, sob as situações mais improváveis, ele surge. E quando vem domina, ocupa, direciona todo ser daquele que ama, restando-lhe poucas alternativas a não ser a rendição, total e irrestrita. O amor não oferece muitas escolhas. Enfraquece o raciocínio e nos deixa à mercê de seus caprichos. Sua vitória é certa como o nascer do sol, bela como as diferentes fases da lua.

Ambos os amantes tem agora um dia difícil pela frente, refletindo sobre tudo que passou. Ele estava enfeitiçado, fazia planos, seu maior temor era o de não ser correspondido e sua ansiedade era a de vê-la novamente. Ela, todavia, estava deveras preocupada, pensando nas loucuras cometidas, martirizando-se com isso. Sabia que tudo o que fizeram havia sido uma grande inconsequência e se perguntava o porquê daquilo. Entendia bem os riscos, logo qual o sentido? Porque insistir em um relacionamento condenado desde o princípio? E porque se arriscar tanto, não só emocionalmente, mas até fisicamente? Não tinha respostas, e isso só aumentava sua angústia. Sentia-se presa, e mesmo assim não queria a liberdade. Prisão sem grades, sem muros, cujo único guarda é si mesmo.

Lá fora, o céu estava completamente azul e não haviam nuvens. As pessoas iam para seus trabalhos, a maioria de carro, iniciando um vai e vêm de veículos nas pistas. Mas na maioria dos carros, cujo espaço interno comportaria cinco pessoas, ia somente uma, o que resultava em lentidão no trânsito e engarrafamento em alguns locais. Centenas de pessoas por quilômetro quadrado, cada uma imersa em seu mundo particular e alheia às dores, alegrias, sofrimentos e esperanças que repousam logo ao lado. Em alta velocidade almejam a felicidade. Têm a pretensão de serem felizes individualmente. Acabam por se frustrar quando percebem que o ser humano depende de outros, desde o nascimento até sua morte. Ao nascermos, choramos ao nos separar de nossa mãe, sofremos quando somos arrancados de seu ventre quente, escuro e aconchegante e expostos ao frio, a claridade e a toda crueldade que há no mundo. Crescemos acreditando que seremos felizes para sempre, porém nos deparamos com um mundo hostil, que machuca, agride e destrói sonhos e esperanças. Se a depressão é o mal do século, o individualismo é a norma da vez, com cada qual lutando por si, por seus interesses, por sua satisfação pessoal. Vivemos egoisticamente. Sofremos na solidão, mas não queremos a companhia de ninguém. Na era do descarte, tudo é substituível, passível de ser trocado assim que possível. Trocamos e somos trocados, e assim nos afundamos no lodo da incerteza, do desamparo e do medo.

O que é o preconceito senão uma forma velada de desejo? O preconceito revela em nós algo que desejamos, demonstrando que tal ideia, comportamento ou pessoa repudiada ocupa nossos pensamentos e, ainda que seja de forma inconsciente, habita em nós. Tememos o que não entendemos exatamente pelo medo do que tal compreensão possa trazer à tona. Vontades reprimidas, inconfessadas, escamoteadas sem que nós mesmos percebamos com clareza. O ódio apenas corrobora que no fundo, na essência, há algum sentimento oculto, de desejo, de paixão, ou mesmo de amor, pois tais sentimentos extremos convivem em um mesmo continuum, sendo apenas faces da mesma moeda. Logo, a sociedade age estupidamente ao destilar profundo rancor contra quem quer que seja. Procedendo assim, revela apenas suas próprias motivações ocultas.

Não seria mais fácil acabar com tudo? Terminar ali aquele relacionamento que teria fim mais cedo ou mais tarde? Afinal, sejamos práticos: amar só traz sofrimento. Seria muito mais simples continuar a vida solitária, não mudando nada, voltando a rotina de antes. Seu trabalho era uma forma de suprir a solidão que habitava seu íntimo. Agora, em seu apartamento, refletindo sobre os acontecimentos, ansiava a brisa noturna. Na noite, jamais estava só. Sentia-se bela, forte, poderosa. Comandava homens e mulheres, proporcionava prazer a ambos, sendo por eles admirada e desejada. Os que a xingavam de dia, gemiam em sua cama a noite. E ela adorava isso. Porém, estava cedo ainda, e a noite demoraria a chegar. Ela então se recolhe para seu quarto de leitura, começando a ler avidamente.

Enquanto isso Arnaldo se engalfinha em uma discussão acalorada com seus colegas de oficina. Enquanto uns acreditam que o reparo de determinada peça é necessário para resolver o problema que surgiu em determinado carro, Arnaldo e outros acreditam que tal peça deve ser substituída permanentemente. Por fim, após breve pesquisa na internet, a discussão acaba, e a peça será trocada.

O dia transcorre tranquilamente na oficina.

No horário habitual o celular de Jéssica toca. Ela estava dormindo. Perdeu o horário do almoço, e não foi na academia mais uma vez. Atende o celular. É sua amiga. Depois do preâmbulo de praxe, Paulinha chega no apartamento de Jéssica, ansiosa para tomar ciência das últimas novidades.

_ Vai amiga, conta logo, quero saber tudo, não me esconda nada.

_ Contar o que?

_ Como assim o que? Você sabe. Conta logo vai.

_ Ah não…

_ Ah Jéssica, para de fazer cú doce. Como assim você não vai contar pra mim? Se não contar prá mim, vai contar prá quem? Somos amigas a quanto tempo? Já vivemos quantas histórias juntas? Conta logo tudinho, tudinho.

_ Ah não, não tenho nada para contar…

Com estas palavras, desatou a chorar. Paulinha nunca viu Jéssica chorando.

_ Não, não chora. Meu Deus, é tão grave assim? O que aconteceu Jéssica? Fala logo, estou aflita.

Jéssica contou tudo.

Paulinha demorou a acreditar. Estava pasma. Em seu íntimo, bem no fundo de seu ser, teve inveja, pois a história, apesar de assustadora por sua impossibilidade, era atraente, correspondendo a sonhos sonhados bem no fundo de sua alma. Contudo tal história jamais aconteceria com ela. Não se iludia. Homens como o descrito por Jéssica são raríssimos, quase impossíveis de serem encontrados. Tinha muito mais experiência que Jéssica, era calejada no ofício e não se deixava levar. Evitava beijos e maiores intimidades por puro profissionalismo. Sempre achou que todas fossem assim. Agora, estava boquiaberta com sua amiga. Não esperava tal situação vinda de uma colega de profissão.

_ Menina, você tem que se cuidar.

_ Eu sei.

_ Sabe né? Não parece.

_ Não briga comigo.

_ Não to brigando, mas é que… puxa vida… você tem que se cuidar. Tô falando da sua saúde… e do seu coração. As coisas não são assim…

_ Eu sei.

_ Sabe nada. Você não sabe.

_ Não briga.

_ Tá, tá bom. E agora você vai fazer o que?

_ Como assim?

_ Vai continuar se encontrando com ele?

_ Claro.

_ Tá vendo? Tá vendo? Tô falando… você não sabe. Não sabe.

_ Não sei o que?

_ Quanto mais você se encontrar com ele, mais presa você vai ficar. Não vai conseguir se livrar. Até que um dia ele se cansa de você. Ou as pessoas forçam ele a se cansar de você. Ai amiga, a gente não nasceu para ser feliz. Andar de mãos dadas, beijar na rua, trabalhar, estudar, isso não é pra gente…

_ Eu sei disso.

_ E então?

_ Então o que?

_ Porque você continua? Porque não acaba com isso logo?

_ Não sei.

_ Eu sei disso. Você não sabe mesmo. Ai amiga, que enrascada você se meteu.

Dizendo isso, abraçou-a fortemente. Tinham muito carinho uma pela outra. Ajudavam-se em tudo, e apesar do pouco tempo que se conheciam, sentiam-se como velhas amigas.

_ Preciso ir.

_ Eu sei. Como está seu filho?

Paulinha tinha um filho que morava com seus pais. Chamava-se Lucas e tinha 05 anos.

_ Ai amiga, ele teve febre esses dias, fiquei tão preocupada. Tive que levá-lo correndo no médico. Mas agora ele está bem já.

_ Que ótimo.

Paulinha foi embora muito preocupada. Estava triste por sentir que não tinha conseguido ajudar.

Quando amiga de Jéssica está saindo de seu apartamento, Arnaldo estava se preparando para fechar a oficina. Teve um dia cheio, e estava muito feliz. Sentia-se como um adolescente, ansioso para ver novamente a namorada. Pensava em Jéssica assim: como uma namorada. E de fato a última vez que sentiu-se assim foi na adolescência. Seus últimos relacionamentos não foram tão intensos. Como um ator que cumpre um papel ensaiado anteriormente, assim Arnaldo viveu seus últimos relacionamentos. Mas Jéssica mudou tudo.

Dirigia para seu apartamento pensando nela. Pensava em suas coxas, em sua bunda, em seus seios, em seu rosto, em sua boca. Excitava-se só em lembrar. Queria estar com ela o quanto antes. Queria poder sair da oficina e vê-la. Mas não podia, pois sabia que dali a pouco tempo ela começaria a trabalhar. Sentiu ciúmes.

Com a lua brilhando alta no céu, Jéssica sai provocante. Está linda, confiante e ansiosa. Quer viver cada momento da noite de hoje e utilizar seu trabalho para esquecer suas preocupações. Clientes já a esperam. Ela os atende sem cessar, um, dois, três, quatro, todos satisfeitos e felizes com o serviço prestado.

Pensa em ir embora, mas resolve ficar um pouco mais. Não demora e chega o último cliente. Faltam dois minutos para a meia noite, ela pensa, encerro com este e espero Arnaldo.

Sobem.

Pagamento adiantado, o programa segue sem maiores problemas, rotina da qual Jéssica está acostumada. Mas, ao encerrar, Jéssica percebe que ele não se levanta. Ela então o faz, dizendo:

_ Vamos embora?

Ele retruca:

_ Não posso ficar um pouco mais?

Jéssica fica apreensiva e se prepara. Ainda não havia passado por nenhuma situação assim, mas sempre soube que poderia ocorrer. Ossos do ofício. Arriscado, diga-se por sinal.

Disse com firmeza:

_ Não pode não. Vamos, levanta. Você tem que ir embora.

_ Ah, vamos, deixa eu ficar. Pago o triplo.

O Triplo? A memória vem como um turbilhão. Logo que ele chegou havia achado a voz dele familiar, mas devido a serem muitos clientes, achou que pudesse ser alguém que já tivesse sido atendido antes. Este é o homem que havia batido em sua porta na noite anterior! O que fazer? Ele é forte. Tem medo de um confronto direto, pois sabe que ira apanhar. Nunca precisou brigar, pois por ser extremamente educada, sempre foi bem tratada por seus clientes, fazendo até alguns amigos. Pensou um pouco e disse:

_ Olha, você não pode ficar. Tenho um último cliente. E ele está chegando.

_ Ah, eu já vi ele chegando antes. Vi que ele dormiu aqui. Porque ele pode e eu não? Quanto ele paga? Eu pago mais. É só falar.

_ Não cara! Sai logo vamos! E não volta nunca mais!

_ Porque você está falando assim comigo?

Nada de bom resultaria dali e ela sabia. Tinha que acabar com aquilo de uma vez. Estava preparada. Sacou um estilete que guardava em uma gaveta e gritou com ele:

_ Sai logo cara! Vamos!

Arnaldo estava esperando lá embaixo pelo horário combinado quando viu alguém sair apressadamente pela porta do prédio. Ainda não eram 12:30h, mas desceu do carro e correu para o prédio. Temendo pelo pior interfonou para Jéssica, que prontamente destravou a porta.

Sobe preocupado com Jéssica. Um filme passa em sua cabeça, a primeira vez que a viu, o primeiro programa, depois os últimos momentos, as declarações de amor, toda a loucura que estavam fazendo.

“Por favor Deus, que nada de mal tenha acontecido com meu amor”.

Quando chega, Jéssica o espera na porta. Quando ela sacou o estilete, o homem se apavorou e levantou os abraços, sendo prontamente rendido. Saiu correndo e xingando enquanto descia a escada.

Emocionados, abraçam-se intensamente.

Lá fora, a lua brilha. Marés são influenciadas por ela, bem como loucos e amantes.